SAUDAÇÕES E BOAS VINDAS

LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO! PARA SEMPRE SEJA LOUVADO!

Caríssimos e amados irmãos e irmãs em Nosso Senhor Jesus Cristo! Sêde BEM-VINDOS!!! Através do CATECISMO, das HOMILIAS DOMINICAIS e dos SERMÕES, este blog, com a graça de Deus, tem por objetivo transmitir a DOUTRINA de Nosso Senhor Jesus Cristo. Só Ele tem palavras de vida eterna. Jesus, o Bom Pastor, veio para que Suas ovelhas tenham a vida, e com abundância. Ele é a LUZ: quem O segue não anda nas trevas.

Que Jesus Cristo seja realmente para todos vós: O CAMINHO, A VERDADE, A VIDA, A PAZ E A LUZ! Amém!

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

O AMOR DAS CRUZES


"Bem-aventurados os que choram... Bem-aventurados sois quando vos insultarem e vos perseguirem, e disserem falsamente todo mal contra vós por causa de mim" (S. Mateus V, 5 e 11).


Além da paciência nos sofrimentos, Nosso Senhor Jesus Cristo quer que os amemos. Quer que tenhamos amor às cruzes, como aliás Ele teve e ardentíssimo: "Eu tenho de ser batizado num batismo de sangue; e quão grande é a minha ansiedade, até que ele se conclua! (S. Luc. XII, 50). Jesus sabia que sua morte seria a vitória sobre o pecado, o demônio e o mundo. "E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim (Dizia isto para designar de que morte havia de morrer) (S. João XII, 32 e 33).

Inicialmente já devemos deixar claro que se trata de algo na vida espiritual por poucos compreendido. Alegria nos sofrimentos e amor verdadeiro às cruzes, na verdade, é um dom que Deus concede às almas generosas. E para recebê-lo, tiveram  que se preparar, dominando a natureza. Assim, na aquisição deste dom faz-se mister primeiramente, dominando a natureza, tão ávida de gozos, desenvolver em si um ardente amor, por meio de uma vida de intima união e de corajosos sacrifícios. Como diz a Imitação de Cristo, "o desejo de sofrer para assemelhar-se a Jesus inspira tanta coragem, que a alma não deseja ficar isenta de tribulações e dores, porque compreende que é tanto mais agradável a Deus, quanto mais sofre por Ele" (L. II.c. XII, n. 8). A alma, que se preparou e assim recebeu este dom, pensa mais ao menos assim: "Sofro, mas é por Deus, é por Jesus que tanto sofreu por mim; reparo minhas faltas, consolo Deus das penas que Lhe causei. Sofro, portanto amo; e, sofrendo, dou provas de meu amor. Sofro, por conseguinte meu amor vai se dilatar; na eternidade será sempre maior e eu hei de amar eternamente e cada vez mais a Deus justamente na medida em que aqui na terra cada vez mais sofrer por amor a Jesus. Sofro, e sofrendo, estou unida a Jesus, continuo-lhe a obra, ou, antes, Ele mesmo a continua em mim, essa obra de dor e de salvação, segundo aquela afirmação do Apóstolo: Completo em minha carne o que falta à Paixão de Cristo". Sofro, portanto, com Jesus pelas almas; como Ele, por Ele e com Ele alcançarei para mim e muitíssimos outros pecadores a felicidade eterna". 

Jesus quisera ver, também nos seus seguidores os sentimentos que animavam o seu Coração. Daí dizer já no início de seu sermão da Montanha: "bem-aventurados os pobres; bem-aventurados os que choram; bem-aventurados os que são perseguidos; sereis felizes quando vos insultarem e disserem todo mal contra vós por minha causa. Regozijai-vos então e alegrai-vos" (S. Mat. V, 10). E os Apóstolos, a exemplo de seu Mestre, regozijaram-se de terem sido condenados e flagelados pelo nome de Jesus (Atos V, 41). São Lucas, resumindo toda a pregação de S. Paulo e S. Barnabé, disse: "Fortaleciam seus discípulos e mostravam-lhes que é por meio de muitas tribulações que devemos entrar no reino de Deus" (Atos XIV, 21). Eis o que diz S. Paulo: "Que sejais confortados com toda fortaleza pelo seu poder glorioso, para suportar tudo com paciência e longanimidade e alegria..." (Colossenses I, 11). Igualmente S. Tiago escreve aos fiéis: "Tomais, irmãos, por modelo no suportar os males e os trabalhos, e na paciência, os profetas, que falaram em nome do Senhor. Vede que proclamamos bem-aventurados aqueles que sofreram" (Tiago V, 10 e 11).   

Mesmo nas coisas da terra, nada se faz de belo ou de grande, sem sofrimento, sem esforço que custa, sem a perseverança que, na verdade, é uma longa paciência. Nas coisas de Deus, caríssimos, o sofrimento é ainda mais necessário, e muito mais fecundo, segundo o que Jesus disse aos seus discípulos depois de lhes profetizar os sofrimentos: "Alegrai-vos, porque será grande a vossa recompensa no Céu!".  O sofrimento aceito de boa vontade por amor a Jesus Crucificado, triunfa do pecado e do demônio, que reina no mundo pelo encanto do prazer, mas é vencido pela cruz. Que é o pecado? Na verdade, não é outra coisa senão o desdém de um dever a cumprir ou a procura de uma satisfação ilícita. Portanto, a vacina contra o pecado é o sofrimento, as privações,  a renúncia de nós mesmos e do que agrada a nossa natureza. Assim vemos como a Providência divina permite com frequência, grandes males para tirar bens maiores: guerras que terminam suscitando heroicos sacrifícios, perseguições (como nos três primeiros séculos da Igreja) para produzir mártires e santos.

Os sofrimentos, as privações, as cruzes, tornam a alma forte e viril, enquanto o bem-estar, os triunfos fáceis, o repouso e as doçuras da vida boêmia a amolecem. A dor purifica a alma e Deus nela se compraz vendo-a acrisolada pela dor. Concede-lhe, então, uma abundância de graças. O sofrimento alimenta e mantém o amor. Constata-se que quem pouco sofre, pouco ama.  Mas, por outro lado, Deus, que não se deixa vencer em generosidade, concede doçura às almas que sofrem por amor a Ele. Dizia São Paulo: "Bendito seja Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, Pai de misericórdia e Deus de toda a consolação, o qual nos consola em toda a nossa tribulação, para que também nós possamos consolar os que estão em qualquer angústia, pelo conforto com que também nós somos confortados por Deus. Porque, à medida que crescem em nós os sofrimentos de Cristo, cresce também por Cristo a nossa consolação." (2 Cor. I, 3-5). Davi havia experimentado os mesmos efeitos da ternura divina: "À proporção das muitas dores que atormentaram o meu coração, tuas consolações (dizia ele a Deus Nosso Senhor) alegraram-me a alma" (Salmo 93, 19). Vemos como Deus, Pai de Bondade, recompensa as almas generosas. Fá-las amar a cruz e encontrar sempre uma grande paz, uma felicidade calma e sólida, e, muitas vezes, alegrias profundas, ali, onde os cristãos pouco generosos para com Deus, não encontram senão tristezas e desolação. Mesmo quando essas almas dedicadas estão imersas na dor, não desejariam deixar de sofrer, porque sentem que assim amam melhor ao Senhor.

Não poderia terminar este assunto sem antes transcrever algo do que escreveu São Luiz Grignon de Montfort em sua admirável "CARTA CIRCULAR AOS AMIGOS DA CRUZ":

NUNCA SE QUEIXAR DAS CRIATURAS

   "Nunca vos queixeis voluntariamente e entre murmurações, das criaturas de que Deus se serve para vos afligir. Distingui, para tanto, três espécies de queixas nos sofrimentos. - A primeira é involuntária e natural: é a do corpo que geme, suspira, se queixa, chora e se lamenta. Quando a alma está resignada com a vontade de Deus, em sua parte superior, não há nenhum pecado. -  A segunda é razoável; é quando alguém se queixa e descobre seu mal aos que podem e devem tratá-lo, como um superior ou o médico. Esta queixa pode ser imperfeita, quando for muito insistente; mas não é pecado.
   A terceira é criminosa: é quando alguém se queixa do próximo para se isentar do mal que ele nos faz sofrer, ou para se vingar; ou quando alguém se queixa da dor que sofre, consentindo nessa queixa e juntando a ela a impaciência e a murmuração. 

RECEBER SEMPRE A CRUZ COM RECONHECIMENTO

   "Nunca recebais nenhum cruz sem beijá-la humildemente e com reconhecimento; e quando Deus, todo bondade, vos houver favorecido com alguma cruz um pouco considerável, agradecei-Lhe de maneira especial e fazei-o agradecer por outros, a exemplo daquela pobre mulher, que, tendo perdido todos os seus bens em virtude de um processo injusto que lhe moveram, fez celebrar imediatamente uma Missa, com o dinheiro que lhe restava, a fim de agradecer a Deus a ventura que lhe era concedida.

CARREGAR CRUZES VOLUNTÁRIAS

   "Se quereis tornar-vos dignos de receber as cruzes que vos hão de vir sem vossa participação e que são as melhores, carregar outras voluntárias, seguindo os conselhos de um bom diretor. 
    Por exemplo: Tendes em casa algum móvel inútil pelo qual tendes afeição? Dai-o aos pobres, dizendo: quererias o supérfluo quando Jesus é tão pobre?

   Tendes horror a algum alimento? A algum ato de virtude? A algum mau odor? Provai-o, praticai-o, aspirai-o. Vencei-vos. 
    
   Amais alguém ou algum objeto um pouco terna e insistentemente demais? Ausentai-vos, privai-vos, afastai-vos do que vos lisonjeia.

   Tendes uma natureza muito inclinada a ver? A agir? A aparecer? A ir a algum lugar? Parai, calai, escondei-vos, desviai os olhos. 

    Odiais naturalmente algum objeto? Alguma pessoa? Procurai-a frequentemente. Dominai-vos. 

    Se sois verdadeiramente Amigos da Cruz, o amor, que é sempre industrioso, vos fará assim encontrar mil pequenas cruzes, com que vos enriquecereis insensivelmente, sem temor da vaidade, que se mistura tão frequentemente à paciência com que suportamos as cruzes muito visíveis; e porque fostes assim fiéis em pouca coisa, o Senhor vos estabelecerá em muito, como o prometeu (Mt. XXI, 21 e 23); isto é, em muitas graças que vos dará, em muitas cruzes que vos enviará, em muita glória que vos preparará". 


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TU QUE DESCANSO BUSCAS COM CUIDADO,
NESTE MAR DO MUNDO TEMPESTUOSO
NÃO ESPERES DE ACHAR NENHUM REPOUSO,
SENÃO EM CRISTO JESUS CRUCIFICADO.
                      Camões


domingo, 17 de setembro de 2017

HOMILIA DOMINICAL - 15º Domingo depois de Pentecostes

Leituras: Epístola de São Paulo Apóstolo aos Gálatas 5, 25-26; 6,1-10.
                Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas 7, 11-16.


  Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

Naim da Galileia. O Lugar da antiga porta onde Jesus
ressuscitou o filho da viúva. A igreja (em cima) foi
construída para lembrar o milagre. Do alto do monte
Tabor pode-se ver ainda a aldeia de Naim.
   O Evangelho deste domingo conta-nos a ressurreição de um rapaz, filho único de uma viúva que morava numa aldeia chamada Naim. 
  Hoje os padres que seguem a Liturgia Tradicional leem no Breviário um trecho do sermão de Santo Agostinho sobre este Evangelho. Vamos dar um  resumo deste sermão.
   Os Santos Evangelistas contam-nos apenas três ressurreições operadas por Jesus: a de uma menina, filha de Jairo, chefe da Sinagoga; a do jovem filho único da viúva de Naim; e a de seu amigo Lázaro de Betânia, irmão de Marta e Maria Madalena. 
 O santo Doutor comenta as três ressurreições operadas por Jesus como símbolos das milhares ressurreições espirituais.
   Santo Agostinho diz: "Amplius est ressuscitare semper victurum, quam suscitare iterum moriturum". É mais importante ressuscitar para viver sempre, do que ressuscitar para morrer de novo.
   Vejamos que lição pretendeu dar-nos Jesus nos mortos que ressuscitou. 
   Ressuscitou a menina logo após ela ter morrido. Ainda estava no seu leito em casa: não havia saído o enterro. Jesus operou o milagre e ali mesmo entregou-a viva a seus pais. Ressuscitou o jovem filho da viúva de Naim. O enterro já havia saído da casa. Já estava fora, ás portas da cidade. Ressuscitou Lázaro, cujo cadáver não só já saíra de casa, mas estava encerrado no sepulcro há quatro dias, e, portanto, cheirava mal.
   Santo Agostinho explica as três sortes de pecadores: a defunta filha do chefe da Sinagoga é simbolo daqueles que têm o pecado no íntimo do coração, mas não o puseram ainda em obras. São os que consentem plenamente nos maus desejos graves, como no caso de adultério, sem contudo realizá-los. Estão mortos no interior do coração. No caso, há um morto, mas não saiu para fora. Às vezes, por efeito da palavra divina, como se Jesus em pessoa lhe dissesse: "Levanta-te" este pecador arrepende-se de seu consentimento ao mal e volta a respirar o ar de salvação e santidade. Este morto ressuscita dentro de casa; este coração revive na intimidade de sua consciência. Esta ressurreição da alma defunta, operada em segredo é simbolizada pela que teve lugar no recinto doméstico.
Explicação mística: o jovem defunto= o homem q, o pecado
mortal matou. A mãe desolada= a Santa Igreja, mãe terna,
santa e vigilante. Jesus toca o ataúde= a graça que toca
o coração pela compunção. Levanta-te= pela Confissão.
Começou a falar= para acusar-se na confissão e rezar
a penitência imposta pelo confessor. Jesus entregou-o
à sua mãe
= à Igreja, à Comunhão dos Santos pela
satisfação:oração, jejum, esmola. 
   Outros passam do consentimento à obra, por assim dizer, o morto saiu para fora. Sai à luz o que já estava na sombra. Também a este que passou a vias de fato, pondo o mal em obras também é ressuscitado pela voz de Nosso Senhor Jesus Cristo e volta à vida espiritual o pecador que se deixou tocar e comover pela palavra da verdade. Já ia se avançando para o abismo e para a morte eterna. Mas Jesus para-o, toca-o, restitui-lhe a vida da alma e entrega-o à sua Mãe, a Igreja. Destes pecadores que não só consentem no pecado no interior da consciência, mas o realizam com obras e logo se arrependem, é simbolo justamente a ressurreição do jovem filho da viúva de Naim.
   Finalmente, há aqueles que de mal em mal, chegam a enredar-se nos vícios, nos maus costumes, a tal ponto que não veem por força do mau hábito, a malícia das suas ações e até se gabam de suas más obras. Assim, diz Santo Agostinho, os habitantes de Sodoma. Tão grande era ali o império do nefando costume, que a perversão se lhes parecia honestidade e mais digno de repreensão o censor do que o malfeitor. "Viestes, dizem os habitantes de Sodoma a Lot, para morar aqui, não para nos dar leis".(que diria Santo Agostinho hoje quando se fazem leis para aprovar e defender os sodomitas?!). Eles, oprimidos pelos costumes malignos estão como que sepultados. Não só sepultados, mas como Lázaro no sepulcro, já cheiram mal. A pedra que cerrava o sepulcro de Lázaro significava a tirania do hábito, que subjuga a alma e não a deixa nem levantar-se nem respirar.
   Diz-se de Lázaro que ele era um defunto de quatro dias (quatriduanus est). E, em verdade, a este mau hábito, que chamamos vício, chega-se como que por quatro etapas: primeira: uma suave chamada do prazer à porta do coração; segunda: o consentimento; terceira: a obra; quarta: o mau hábito. Há aqueles que repelem as coisas ilícitas logo que saem de seus pensamentos, para nem sequer sentir o prazer. Há aqueles que, sentindo o prazer, não consentem nele; ainda isto não é a morte, senão uma espécie de início de morte; porém, se ao deleite se junta o consentimento, vem a obra; e esta se torna costume. Neste caso, a gravidade é extrema. Neste sentido podemos dizer: esta alma está morta há tempo e cheira mal. Chega, então, Nosso Senhor, para o qual tudo é fácil; mas, como para dar a entender quão difícil é aqui a ressurreição, Ele, na ressurreição de Lázaro, suspira fortemente, e fala bem alto: "Lázaro,sai para fora deste sepulcro!" Sem embargo, à esta voz possante do Senhor, rompem-se as cadeias da tirania da sepultura, treme o poder da morte, e Lázaro foi devolvido à vida. Irmãos, observai as circunstâncias desta ressurreição: saiu vivo do sepulcro, mas não podia andar. Diz, então, Nosso Senhor aos discípulos: "Desatai-o e deixai-o ir". Jesus o ressuscitou da morte; os discípulos soltaram as ligaduras que impediam a Lázaro de andar. Reconhecei que a majestade divina se reserva certa coisa nesta ressurreição. A um consuetudinário (=pessoa dominada pelo vício) se lhe dizem duramente as palavras da verdade; porém, quantos não as ouvem? Depois das reprimendas, fica o pecador sozinho com os seus pensamentos e estes falam-lhe da má vida que leva e o péssimo hábito que o oprime. Enojado de si mesmo, resolve mudar de vida. Eis a ressurreição: ressuscitam, pois, quando começam a ser-lhes odiosos os procederes de antes; embora, porém, voltados à vida, não podem andar; as ligaduras de suas repetidas culpas impendem-nos. É mister, por isso, que ao ressuscitado se lhe desate e deixe caminhar; função esta encomendada pelo Senhor aos discípulos quando lhes disse:"O que desatardes na terra, será desatado no céu".
   E Santo Agostinho termina o sermão mostrando a necessidade da pronta ressurreição espiritual: "Estas reflexões, oh! caríssimos, devem persuadir aos vivos a continuar vivendo, e aos que não vivem, a recobrar a vida. Se o pecado concebido no coração não saiu ainda para fora, haja arrependimento, corrija-se o pensamento, ressuscite o morto na intimidade de sua consciência. Se executou a ideia, tampouco desespere; se o morto não ressuscitou dentro, ressuscite fora. Arrependa-se de sua ação, reviva em seguida, não baixe ao profundo da sepultura, não caia em cima a lousa do mau hábito. E se, porventura, me está ouvindo quem jaz oprimido pela fria e dura pedra, quem já traz sobre si o peso do costume e cheira mal, como morto de quatro dias, tampouco este deve perder a esperança; mui baixo está sepultado, porém, Cristo está em cima. Ele pode desfazer com a força de sua voz as lousas do sepulcro; Ele pode devolver-lhe a vida da alma; Ele os deixará nas mãos de seus discípulos para que o desatem. Façam também penitência estes mortos. Quando Lázaro ressuscitou depois de quatro dias, nada conservou da infecção primeira. Assim, pois, os vivos continuem vivendo, e os mortos de qualquer destas mortes, ressuscitem logo. Amém!
   
   
  
    

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

FESTA DE NOSSA SENHORA DAS DORES

 
 Jesus Cristo, Nosso Senhor, associou sua Mãe Santíssima a todas as suas glórias e grandezas e por isso fê-la também companheira de todos os seus sofrimentos. Jesus quis que Sua Mãe fosse Rainha dos Mártires. Belíssima gema faltaria na sua coroa se não tivesse a dor. Foi Rainha da dor e do martírio. E seu martírio durou toda a sua vida. Sabia-o ela muito bem pelas santas profecias do Velho Testamento a respeito do Messias, que era o seu Filho. Quanto sofreu com a ingratidão, a traição, o abandono, o desamor de que foi alvo o seu Filho: Belém, Egito, Nazaré, Jerusalém, o presépio e Calvário, o Templo, o palácio de Herodes e de Pilatos, são todos lugares onde o seu coração se despedaçou tantas vezes!

   Primeiro, consideremos as dores de Maria Santíssima na sua parte natural e humana e, depois na sua parte divina e sobrenatural.

   1º - Dor humana e natural: A dor corresponde ao amor. Em outras palavras: onde há mais amor, maior a dor. O amor de Maria Santíssima era um amor de Mãe. Caríssimos, com isto está tudo dito! Amor de mãe é o amor mais puro, mais nobre, menos egoísta que na terra existe. Por isso Deus não quis que tivéssemos mais do que uma; ela só basta para encher toda a nossa existência de carinhos inefáveis; de beijos terníssimos, de um amor que enche plenamente o nosso coração. Como ama uma mãe! E como amaria a Santíssima Virgem a seu Filho! Basta pensarmos que Deus pôde preparar para si a sua Mãe. Empregou com certeza todo seu amor e todo seu poder para preparar um coração que amasse sem limite o Filho de Deus que era também o Seu Filho! Daí, caríssimos, podemos imaginar qual não seria a dor de Maria Santíssima na perda de seu Filho, único, o melhor de todos, que amava a sua mãe como nenhum filho amou a sua. E Jesus morreu não por uma enfermidade, por um acidente infeliz, mas por traição, ingratidão, enorme e horrível injustiça e que tudo isto foi realizado no meio de atrocíssimos tormentos e na presença desta mãe amorosíssima! 

Dor divina e sobrenatural: Caríssimos, se já foi difícil, para não dizer impossível, formarmos uma ideia inteiramente adequada da dor natural e humana de Nossa Senhora por ter presenciado as dores e morte atrocíssimas de seu divino Filho, como poderemos avaliar devidamente sua dor sobrenatural? Primeiro, quem conheceu, como Maria Santíssima, que o seu Filho era Deus? E quem conheceu Deus como ela? Sobretudo quem O amou como ela? Como sentiria, portanto, as ofensas, os insultos, os tormentos que os homens deram a Jesus? Se, como Mãe, todas as dores de Jesus, se repercutiam no seu coração, que seria como Mãe de Deus? Os mártires sofriam com alegria abraçados ao crucifixo. Os penitentes e os eremitas são alentados pela vista da imagem de Jesus Crucificado. Para Maria, porém, a vista de Jesus Crucificado, era precisamente o seu maior tormento. O mesmo que ia consolar a outros, era o verdugo do coração da Mãe. As dores de Maria Santíssima, não foram físicas, mas por isso mesmo, foi mais intensa a sua dor por ser toda ela interna, puramente espiritual!

   Caríssimos, não poderia terminar sem destacar um detalhe: é que Maria Santíssima fez a vontade do Pai Eterno. Deus Pai queria que Ela oferecesse o seu Filho em sacrifício para salvar os seus outros filhos que somos nós. E ela ofereceu o seu Coração Imaculado para ser transpassado de dor, para que justamente desta ferida aberta nascêssemos todos nós, os filhos de sua dor!. Para nos salvar, Deus não perdoou o seu próprio Filho. Também Maria Santíssima fez o mesmo! E assim ela esteve ao pé da cruz, morta de dor, desejando a morte de seu Filho Jesus, para dar-nos a vida eterna. Quanto amor! Mas também quanta dor! Ah! caríssimos, quanto custamos a Maria Santíssima ser filhos seus! Então, amemo-la mesmo à custa dos nossos sofrimentos e, se for da vontade de Deus, até da nossa própria vida. Quem não amar a Jesus, seja anátema; e quem não ama a Maria Santíssima é porque não ama a Jesus. 

OS SOFRIMENTOS


"Então um dos anciãos, tomando a palavra, disse-me: Estes que estão revestidos de vestimentas brancas, quem são? e donde vieram? Respondi-lhe: Meu Senhor, tu o sabes. E ele disse-me: estes são aqueles que vieram da grande tribulação, lavaram os seus vestidos e os embranqueceram no sangue do Cordeiro" (Apocalipse VII, 13 e 14).

Deus o sumo Bem, criou o homem para ser feliz, já neste mundo. E de onde vêm os sofrimentos? A dor é filha do pecado. A finalidade, pois, dos sofrimentos é primeiramente reparar a honra divina ultrajada pelo pecado, e, portanto é uma punição. Tem, outrossim, como finalidade, destruir as consequentes corrupções que vieram do pecado. Na verdade, só  fora introduzida a dor no mundo, em seguida ao pecado. O pecado desmoronou toda a ordem da natureza. Agora, as rosas que tanto nos encantam, estão cercadas de espinhos, aptos a ferir quem as quiser colher.

Aqui, caríssimos, sob o termo "SOFRIMENTOS",  queremos incluir também os interiores que, por vezes, ficam ocultos no mais íntimo da alma, mas não menos pungentes que os exteriores, e até mais do que estes! Pois bem, o fogo da dor visa igualmente punir o pecado e, ao mesmo tempo, depurar a alma dessas impurezas. Deus quer consumir em nós o que Lhe ofende a pureza do olhar, e, sobre as cinzas dos nossos defeitos, fazer germinar belas virtudes. "Contraria contrariis curantur": os nossos defeitos serão curados pelas virtudes contrárias a eles. A sensualidade será destruída pela dor física; a avareza, pela perda ou diminuição dos bens; o orgulho, pelos desprezos, pelas críticas, ou até pelas calúnias; o egoísmo, pelo abandono, pela indiferença do próximo etc.. Assim, naturalmente, a dor é terrivelmente pungente e viva nas almas cheias ainda de imperfeições. Quanto às almas já mais purificadas e livres de apegos terrenos, e, consequentemente cheias de amor de Deus, estão bem dispostas a tudo aceitar de suas mãos paternais aquilo que outrora lhes fazia sofrer. Não quero dizer que não sofram tais almas, mas que nelas a dor é geralmente suscitada por causas mais nobres e assim sofrem pelas ofensas feitas a Deus. Demais, a esses sofrimentos une-se uma paz cheia de doçura, uma resignação total que alivia, que torna amáveis as próprias dores.

Já que em Deus a Justiça e a Misericórdia se osculam e ambas andam de perto, depois do pecado, a dor não é somente fruto da Justiça divina, mas também de sua misericórdia: Deus, enviando a dor aos homens, se esses souberem aproveitar, podem dela  auferir inapreciáveis vantagens. Vamos, pois, com a graça de Deus, considerar aqui os grandes benefícios dos sofrimentos:

1º - Desprender nosso coração da terra, dirigi-lo ao Céu e torná-lo apto a receber a graça divina:

Sem o sofrimento preparado pela Providência, ninguém seria bastante corajoso para aplicar a si mesmo o ferro e o fogo que suprimem e consomem os apegos imperfeitos, as afeições puramente naturais, esses inúmeros laços que encadeiam as almas, impedindo-as de voar para as alturas da perfeição que leva ao Céu. Assim, o Divino Espírito Santo, através de cruzes e tribulações procura desprender nosso coração da terra, dirigi-lo ao Céu, e torná-lo apto a receber a graça divina. Deus, que é infinitamente bondoso, está sempre disposto a derramar com profusão Suas graças entre os homens, as quais são semelhantes a um líquido sumamente precioso. Deus tem um reservatório inesgotável em que conserva suas graças e bênçãos: é a sua infinita liberalidade. Nossos corações são como vasilhas nas quais Deus deseja derramar as torrentes de suas graças. Podemos, comparando, dizer que três são as classes de pessoas que se aproximam de Deus no intuito de receber em seus corações o líquido preciosíssimo de suas graças: as primeiras vão a Nosso Senhor com o coração verdadeiramente desprendido, ou seja, vazio de todas as coisas terrenas. Deus, então, enche estes corações de Suas graças. Outras pessoas apresentam corações quem têm uma boa vontade, mas entulhados de afetos e apegos ao mundo, isto é, com vaidade, vanglória, comodidade, caprichos e vontade própria. Tais corações não possuem senão pequeno espaço para receber e conservar a graça divina. Deus só pode derramar neles muito pouco. Finalmente, a terceira espécie de pessoas são aqueles que apresentam a Deus o coração cheio inteiramente das coisas deste mundo, completamente mundanizado e terreno. Tais pessoas nada podem receber. Jesus quer comunicar-lhes Suas graças, mas não há lugar para Ele no albergue de seus corações.

2º - Servem para nossa santificação, devem ser meios para nos unir mais intimamente a Deus:

Sabemos que a essência da santidade consiste na mais perfeita conformidade da nossa vontade com a de Deus. Deus tem todo direito de exigir de nós, Suas criaturas, nos submetamos e subordinemos, sem restrição, à Sua santíssima vontade. Mas esta submissão em todas as coisas torna-se extremamente difícil. Temos mais facilidade em renunciar as coisas que temos, mas grande dificuldade em renunciar o que somos, ou seja, à nossa vontade. Pois bem! Nada mais próprio para submeter a nossa vontade à vontade divina do que as provações e contrariedades que por permissão de Deus vêm sobre nós. Estas provações são quase sempre contra a nossa vontade e o nosso gosto. E também constatamos que em tempo de sofrimentos não podemos compreender que a cruz nos possa ser proveitosa; de modo que, para não sucumbir debaixo do seu peso, devemos empregar todas as energias da nossa fé e todas as forças da nossa vontade para nos curvarmos humildemente e beijarmos a mão que nos fere, dizendo com toda sinceridade: "Senhor, seja feita a vossa vontade". Ademais, se na escola do sofrimento chegarmos a ponto de aceitar a cruz inteiramente resignados, isso será para nós um meio preciosíssimo de santificação. Então o sofrimento nos elevará mais alto na virtude e santidade em um só dia, do que muitas semanas e, talvez meses, quando tudo nos corria às mil maravilhas, sem cruz nem dores quer externas quer internas.

3º - As cruzes e os sofrimentos nos garantem um grau elevado na eterna glória:

São João Evangelista escreve no Apocalipse que um dia viu o céu aberto e, contemplando os bem-aventurados, chamou-lhe a atenção uma multidão que se distinguia entre os demais, por sua beleza e glória. "Então um dos anciãos falou e me disse: quem são estes que estão trajados de vestes alvas? e donde vieram? Eu lhe respondi: Senhor meu, tu o sabes. E volveu-me: Estes são os que vieram de uma grande tribulação, e lavaram as suas vestes e as puseram alvas com o Sangue do Cordeiro" (Apoc. VII, 13 e 14). Eis a glória e recompensa dos sofrimentos suportados com paciência. Todas as vezes que aceitamos sem revolta uma cruz, por amor de Jesus, oferecemos um sacrifício a Deus; e todo sacrifício feito em estado de graça santificante aumenta também essa graça. Ora, quanto maior, for em nós a graça santificante, tanto maior também a glória eterna no Céu. Portanto, toda cruz que alegremente abraçamos e suportamos em união com o divino Salvador aumenta a nossa glória celeste.

Caríssimos, quando as ondas revoltosas de um mar de sofrimentos nos assaltarem, para onde devemos correr? Para diante de Jesus Crucificado, e, melhor ainda, do Sacrário. O amorosíssimo Salvador ou vos tirará a cruz ou, o que muito melhor, fortalecerá os vossos fracos ombros, para que possam carregá-la com alegria e amor. Na verdade, a cruz é a nossa esperança porque será a chave de ouro que nos abrirá as portas do Céu.

"Na cruz está a salvação; na cruz, a vida; na cruz, amparo contra os inimigos; na cruz, a abundância da divina suavidade; na cruz, a fortaleza da alma; na cruz, o gozo do coração; na cruz, o compêndio das virtudes; na cruz, a perfeição e santidade" (Livro da Imitação de Cristo).

Não poderia terminar este artigo sobre o sofrimento sem salientar um detalhe importantíssimo: a dor é a pedra de toque das virtudes. A provação ilumina a alma sincera, desvenda-lhe o mal oculto nas dobras de seu coração. Faz mais, porém, que revelar o mal, ataca-o, contanto que saibamos tirar proveito de sua ação benfazeja. A dor, humilhando-nos, torna-nos melhores. Faz-nos sentir mais vivamente nossa incapacidade e nosso nada. Quantas vezes a dor aproximou de Deus homens que a prosperidade d'Ele afastara? Abençoado o sofrimento que leva o filho pródigo ao lar paterno! E as almas já fervorosas são ainda mais santificadas pelos sofrimentos. No sofrimento, a fé se ilumina, a esperança se torna ardente e inabalável, o amor se fortifica e se dilata. E muitas outras virtudes acompanham estas três virtudes teologais: a paciência, a renúncia, a suavidade etc..

Senhor Jesus Crucificado, fazei que eu leve a cruz de boa vontade para que ela possa me conduzir ao termo desejado que é a Pátria do Repouso Eterno! Amém!


domingo, 10 de setembro de 2017

HOMILIA DOMINICAL - 14º Domingo depois de Pentecostes

   Leituras: Epístola de São Paulo Apóstolo ao Gálatas 5, 16-24.
                   Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus 6, 24-35


Uma paisagem da Palestina."Olhai para as aves do céu..."
   Evangelho: Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: Ninguém pode servir a dois senhores. Porque, ou há de aborrecer a um e amar o outro, ou há de acomodar-se a este e desprezar aquele. Não podeis servir a Deus e às Riquezas. Por isso vos digo: não vos inquieteis por vossa vida, com o que comereis, nem por vosso corpo, com o que vestireis. Não é a vida mais que o alimento, e o corpo mais que a vestimenta? Olhai para as aves do céu. Elas não semeiam, nem colhem, nem fazem provisão nos celeiros; contudo, vosso Pai celestial as sustenta. Não valeis vós muito mais do que elas? Qual de vós pode com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado sequer a sua estatura? E pela vestimenta, porque vos inquietais? Considerai como crescem os lírios do campo. Não trabalham nem fiam. Entretanto, digo-vos que nem Salomão, com toda a sua glória, se vestiu como um deles. Se, pois, Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada ao fogo, que não fará por vós, homens de pouca fé? Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos ou que beberemos, ou com que nos vestiremos? Os pagãos é que se preocupam com essas coisas. Bem sabe vosso Pai que tendes necessidade de tudo isso. Procurai, antes de tudo, o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo isso vos será dado por acréscimo". 

   Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

   Antes de tudo, Nosso Senhor Jesus Cristo enuncia um princípio geral: Ninguém pode servir a dois senhores ao mesmo tempo. Evidentemente trata-se de dois senhores de sentimentos e vontades opostas, incompatíveis entre si. Por isso, seguir um, significa forçosamente rejeitar o outro; odiar um é amar o outro. E quais sejam esses dois senhores, Jesus esclarece-o logo: "Não podeis servir a Deus e a Riqueza". No texto original está a palavra Mammona que os comentadores traduzem pela expressão: Dinheiro ou Riquezas. Mammon era, com efeito, o deus das riquezas, entre os sírios. Mammon está, pois, aqui como um deus falso oposto ao Deus verdadeiro. Na verdade, o dinheiro é o deus dos avarentos. São Paulo dizia que o estômago é o deus dos inimigos da cruz de Cristo, os gulosos: "Quorum deus, venter est". Para os libidinosos o seu deus é o prazer carnal; para os soberbos é o seu "eu". A ele, os mundanos sacrificam tudo: trabalhos, sofrimentos, pesares, e... até a vida eterna. 
A morte do mau rico: As riquezas são um perigo e,
quando mal empregadas, levam aos tormentos eternos.
O pobre Lázaro morreu e foi conduzido ao Seio de
Abraão, ou seja, ao Céu. Lembremo-nos que Abraão
possuía muitas riquezas, mas não tinha nenhum
apego a elas e empregou-as para o bem. 
   O Divino Salvador condena o amor das riquezas, esse amor desordenado que acorrenta o coração do homem, fazendo-o esquecer os interesses da sua alma. Mas não condena o justo cuidado que deve ter todo homem de prover com o trabalho a sua própria subsistência, e a daqueles que lhe foram confiados. O Divino Mestre não disse: - não podeis servir a Deus, e ser ricos; mas não podeis servir (ao mesmo tempo) a Deus e ao Dinheiro. Há, com efeito, muitos santos que , sendo ricos, serviram-se santamente dos bens da fortuna. Foram donos de seus bens, e não escravos deles.
   "Não vos inquieteis dizendo: Que havemos de comer, ou que havemos de beber, ou com que havemos de nos vestir? Porque os pagãos é que se preocupam com todas estas coisas, mas vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isto". Quanto maior, quanto mais urgente é a necessidade, tanto mais sólida deve ser a nossa confiança em Deus, porque Ele nos prometeu o necessário, não o supérfluo. 
   Depois de apresentar várias razões para confiarmos na Providência Divina, Nosso Senhor Jesus Cristo tira a conclusão: "Procurai, pois, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça; e todas estas coisas se vos darão por acréscimo".  Quer dizer, antes de tudo, acima de tudo, procurai o reino de Deus, empregai toda a atenção, solicitude e vigilância de que sois capazes na obtenção dos bens celestes, da felicidade eterna. E que significa  - e a sua justiça? Quer dizer os meios que conduzem à salvação, à vida eterna, a saber, a graça de Deus, as virtudes cristãs, as boas obras, numa palavra, tudo o que nos torne justos e santos diante de Deus, seus verdadeiros servos e seus filhos muito amados. E que significam as palavras: e o resto vos será dado por acréscimo? Quer dizer o seguinte: se vós fordes fiéis em bem servir a  Deus, em Lhe agradar em tudo, Ele, como bom Pai, tomará a seu cargo dar-vos tudo o que, na terra, é necessário à vida do corpo. "Fui moço, dizia Davi, e agora sou velho, e nunca vi o justo abandonado nem os seus filhos mendigando o pão".
Uma paisagem da Palestina. "Considerai como crescem
os lírios do campo..."
   Dizendo que os bens temporais nos serão dados por acréscimo, Jesus nos faz entender que eles não fazem parte da recompensa que merecemos pelas nossas boas obras, cuja medida nos será dada no céu. Esses bens constituem, apenas, um dom liberalmente acrescentado à medida cheia e completa  que havemos de ter na Pátria celestial.
    Antes de terminar quero já responder a uma possível pergunta: Sendo muitos os vícios capitais, por que Nosso Senhor Jesus Cristo fala só da avareza, ao menos aqui, nesta oportunidade? Por vários motivos: Primeiramente, o próprio Divino Espírito Santo diz na Bíblia Sagrada: "A raiz de todos os males é o amor ao dinheiro, por causa do qual alguns se desencaminharam da fé e se enredaram em muitas aflições" (1Tim. 6, 10). E ainda: "Não há coisa mais iníqua do que aquele que ama o dinheiro, porque venderia até a sua mesma alma, visto que se despojou em vida das próprias entranhas" (Eclesiástico 10, 10). A outra razão é que: enquanto os outros vícios soem diminuir com a idade, a avareza cresce. E ainda podemos dizer que este vício capital, mais do que os demais, engana com pretextos: a necessidade de se prevenir para o futuro, garantir o sustento dos filhos também para o futuro; é preciso trabalhar etc. A avareza leva muitos a perder a fé, e leva à impenitência final. Vede o exemplo de Judas Iscariotes. Os demais vícios muitas vezes aparecem odiosos e humilham. A avareza alimenta e facilita os demais vícios. Por isso vemos que é por aí que o demônio começa. É o caminho mais fácil que o inimigo de nossa alma encontra para perdê-la. 
  Infelizmente, não vemos católicos, alguns que se dizem praticantes e comungam frequentemente, e, no entanto, cometem injustiças, têm ódio daqueles que os lesaram nos seus haveres? Quantos ódios nas famílias por causa de heranças! É coisa muito triste!!! 
    Ó Jesus, concedei-nos a graça de procurar, antes de tudo, o reino de Deus e a sua justiça, para que, usando retamente dos bens da terra, cheguemos, pela prática das virtudes, ao Reino dos Céus. Amém!
   

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

MORTIFICAÇÃO


"Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me" (S. Mateus XVI, 26).

 "Certamente, nem a todos é dada a possibilidade, nem todos têm a obrigação de fazer o mesmo; mas cada um é obrigado, segundo o seu poder, a mortificar a sua vida e os seus costumes. Exige-o a justiça divina, à qual é dada estrita satisfação das culpas cometidas; e é preferível dar essa satisfação enquanto se está em vida, com penitências voluntárias, porque assim também se tem o mérito da virtude. Além disto, já que nós todos estamos unidos e vivemos no corpo místico de Cristo, que é a Igreja, daí se segue, consoante S. Paulo, que, tal como os gozos, assim também as dores de um membro são comuns a todos os outros membros: quer dizer que os irmãos cristãos devem vir voluntariamente em auxílio dos outros irmãos nas suas enfermidades espirituais ou corporais, e, na medida em que estiver em seu poder, cuidar da cura deles; "os membros tenham a mesma solicitude uns com os outros; e, se um membro sofre, sofrem com ele todos os membros; ou, se tem glória um membro, todos os membros se regozijam com ele. Ora, vós sois corpo de Cristo, e particularmente sois membros deste" (1 Cor. 12, 25-27). Nesta prova que a caridade nos pede, de expiarmos as culpas de outrem, a exemplo de Jesus Cristo, que com imenso amor deu a sua vida para redimir todos do pecado, está este grande vínculo de perfeição que une estreitamente os fiéis entre si, com os Santos e com Deus. Em suma, o espírito da santa mortificação é tão vário, industrioso e extenso, que qualquer um   -  desde que animado de piedade e de boa vontade  -  pode praticá-lo com muita freqüência e sem esforço excessivo" (Leão XIII, Octobri Mense).
Caríssimos, amar a Deus sobre todas as coisas, de todo coração, com todas as forças, eis o grande mandamento. No Céu O amaremos naturalmente, necessariamente, infinitamente. Igual coisa não se dá na terra. No estado atual da natureza decaída, é impossível amar a Deus com amor verdadeiro e efetivo, sem esforço, sem sacrifício. É o que resulta das tendências da natureza corrupta que permanece no homem, mesmo regenerado pelo batismo. Não podemos amar a Deus sem combater estas tendências. Por isso Nosso Senhor disse: "Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me" (S. Mat. XVI, 26). Seguir a Jesus Cristo é amá-Lo, e a condição de O seguir e amar é renunciar a si mesmo, isto é, as más inclinações da natureza, o que se consegue pela prática da mortificação. Para obter a graça, para conservá-la e multiplicá-la, precisamos a cada passo de penitência. Daí a mortificação em si, dentro de certas condições e em dadas circunstâncias, não é um simples conselho de perfeição, é, antes, DE PRECEITO, ou seja, é necessária à salvação: "Se não fizerdes penitência, disse o divino Mestre, todos igualmente perecereis" (S. Lucas XIII, 5).
O luxo moderno e costumes efeminados que se alegam muitas vezes em favor de uma diminuição da mortificação, podem também servir para defender o ponto de vista oposto. Pois, sendo ofício especial da Igreja dar testemunho contra o mundo, deve este testemunho consistir em atacar os vícios reinantes da sociedade, e por conseguinte, deve fazê-lo nestes dias contra a moleza, o culto do conforto e as extravagâncias do luxo. O mundo, a carne e o demônio permanecem realmente os mesmos em todos os tempos, e assim também a mortificação corporal presta os mesmos serviços. A melhor de todas as penitências é receber em espírito de compunção interior as mortificações que Deus, na sua Sabedoria e na sua amorosa e paternal Providência, nos envia. Quanto a isso não há a menor dúvida. É mister, porém, observar o seguinte: sem o generoso hábito das penitências voluntárias não é muito provável conseguir adquirir este espírito interior de penitência e portanto tirarmos todo proveito das provações involuntárias que Deus nos manda.
Vamos apresentar dez vantagens da mortificação:
- Domar o corpo: A penitência submete as paixões revoltosas ao poder da graça e à parte superior da nossa vontade. Na verdade, não encontraremos em pessoa alguma a força de vontade ou a seriedade de espírito, se ela não se esforçar deveras por subjugar o corpo.
2ª- Criar uma consciência delicada: isto é, uma sensibilidade de consciência para ver e detestar o menor pecado que seja. Se não é o único meio, pelo menos a mortificação constitui um dos principais.
3ª - Obter crédito diante de Deus: Empresta uma maior força à oração; dá um êxito muito maior nos esforços para desarraigar algum pecado habitual, vencer as tentações, obviar as surpresas do gênio e da língua.
4ª - Avivar o nosso amor a Deus: Manifestam e aumentam o nosso amor. E quando o objeto que amamos e contemplamos é, como Jesus, um objeto de dor e de sofrimentos, na contemplação da Paixão de Jesus sentimos um amor maior que nos excita a imitá-lo.
5ª - Desapegar-nos das vaidades do mundo e inundar-nos com a alegria espiritual: Nada em si é tão oposto às vaidades do mundo como a mortificação que destrói tudo o que elas mais prezam e mais amam. A alegria espiritual, é como a enchente da maré, que entra por onde encontra lugar vazio. A proporção, portanto, que os nossos corações se desapegam das amizades terrenas, isto é, das afeições que não constituem para nós um dever, eles se tornam capazes de gozar da doçura de Deus. As pessoas mortificadas são sempre alegres. O coração se alivia por lhe ser retirado o fardo do corpo. A penitência junto com a oração bem feita nos unem a Jesus e, estar com Jesus é um doce paraíso!
6ª - Impedir que abandonemos cedo demais a Via Purgativa: Na verdade constitui um grande perigo na vida espiritual querer passar logo para as vias iluminativa e unitiva, abandonando precocemente a via purgativa em que devem dominar a virtudes da penitência. Na verdade, muitos se apressam tanto no começo, que ficam sem respiração e abandonam por completo a corrida. Assemelham-se aos insensatos que correm loucamente para fugir de sua sombra. A alma ainda ligeiramente fatigada de vigiar a si mesma, quer já converter o mundo. Assim peca por indiscrição e zelo imprudente. Fazendo uma comparação: a água transborda a força de ferver e apaga assim o fogo, isto é, destrói a ação do Espírito Santo pela indiscrição. Verdadeiramente, conservar-se por mais tempo (não meses mas anos) na região inferior de purificação, nunca trará prejuízo à alma, mas querer elevar-se com demasiada rapidez é expor-se a muitos perigos. As nossas paixões são como lobos, fingem estar mortas. Daí constituir um grande perigo abandonar a mortificação.
7ª - Conceder-nos o dom da oração mental. Por tudo o que já foi dito acima, temos facilidade em compreendê-lo: O coração se alivia por lhe ser retirado o fardo do corpo, e aí, alma, qual, águia tem facilidade em subir às alturas da meditação e da contemplação.
8ª - Dar à santidade profundeza e força: Assim como os exercícios de ginástica desenvolvem os músculos e os robustecem. Isto refere-se ao que foi dito há pouco, de não abandonar cedo demais a Via Purgativa. Ex.: Simeão Estilita quando primeiro começou a se sustentar sobra a coluna, ouviu no sono uma voz lhe dizer: levanta-te, cava a terra. Pareceu-lhe ter cavado algum tempo e depois cessado, quando a voz lhe disse: cava mais fundo! Quatro vezes cavou, quatro vezes descansou, e quatro vezes a voz repetiu: cava mais fundo! Depois disse-lhe: Agora constrói tranquilamente. Pois bem! Este trabalho humilhante de cavar é a mortificação. Sendo escultor, veio-me uma comparação que compreendo com conhecimento de causa: o escultor, quando quer trabalhar com madeira, escolhe o cedro. Por que? primeiro por ser um madeira de lei que não é atacada pelo cupim; segundo é uma madeira ao mesmo tempo fácil de cortar e firme. Nossa alma deve ser firme pela penitência, e também humilde, isto é,  fácil de ser talhada pelo divino Artista, Nosso Senhor Jesus Cristo.
9ª - As austeridades corporais levam a alma a atingir a graça mais alta da mortificação interior: Seria pura ilusão supor ser possível mortificar o juízo e a vontade, sem mortificar também o corpo. Na verdade a mortificação interior é mais excelente; a exterior, no entanto, é mais eficaz.
10ª - A mortificação é uma escola excelente onde será adquirida a régia virtude da discrição. A discrição é o hábito de dar exatamente no alvo, e, para acertá-lo, é preciso ter no olhar uma exatidão e na mão uma firmeza sobrenaturais. A discrição se manifesta na obediência, na humildade, na falta de confiança em si mesmo, na perseverança e no desapego das próprias penitências.
Depois de tudo que acabamos de expor sobre a penitência, facilmente entendemos a afirmação tão categórica de São João da Cruz: "Se alguém desaprova a penitência, não lhe deis crédito, ainda que faça milagres".
Caríssimos, o divino Mestre disse: " O reino dos céus sofre violência e só os violentos o arrebatarão". Para chegarmos ao céu temos que combater como bons soldados de Jesus Cristo. E esta luta durará enquanto durar a vida. A felicidade eterna será um bem laboriosamente conquistado; e isto constitui, outrossim, a glória dos eleitos e lhes aumenta o gozo, pois amarão a Deus com maior perfeição. Consola-nos saber que cada vitória é uma conquista; triunfando de um defeito, adquirimos maior domínio sobre nós mesmos e, quanto mais fortes formos, mais capazes seremos de fazer o bem.
Através da mortificação, à medida que a alma progride, as revoltas da natureza, embora nunca desapareçam de todo, tornam-se menos violentas, e a graça, menos embaraçada, opera com maior poder. A vitória custa muito menos e entretanto os atos de virtude são mais puros, mais eficazes; a imaginação permanece mais calma, o apetite irascível mantém-se em repouso, o espírito não raciocina tanto. Então Deus opera com maior liberdade. Oh! como serão ricas as almas generosas, no dia da prestação de contas, quando for dado, e para sempre, a cada um, segundo suas obras! Amém!


quarta-feira, 6 de setembro de 2017

A PÁTRIA E O POVO

 A PÁTRIA E O POVO

                   Dom Fernando Arêas Rifan*
                                                                                                                                   
Amanhã, dia da Pátria, é dia de cultivarmos a virtude do patriotismo, dever e amor para com o nosso país, incluído no quarto Mandamento da Lei de Deus. Jesus, nosso divino modelo, amava tanto sua pátria, que chorou sobre sua capital, Jerusalém, ao prever os castigos que sobre ela viriam, consequência da sua infidelidade aos dons de Deus. É tempo oportuno, pois, para refletirmos sobre a nação, na qual vivemos e da qual esperamos o nosso bem comum. Será que também não devemos chorar sobre nossa pátria amada, ao vermos, na política, tanta corrupção, falta de honestidade, ética, honradez, com total desprezo das virtudes humanas e cristãs, dos pequenos e dos grandes?  E, como se diz, o povo tem o governo que merece, não será sobre o povo brasileiro que devemos chorar?
  “Estamos perdidos há muito tempo... O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada. Os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita... Ninguém crê na honestidade dos homens públicos... A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente. O Estado é considerado na sua ação fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo. A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências. Diz-se por toda a parte, o país está perdido! Algum opositor do atual governo? Não!”(Eça de Queirós, ano 1871).  
Segundo Aristóteles, “o homem é por natureza um animal político, destinado a viver em sociedade” (Política, I, 1,9). Política vem do grego pólis, que significa cidade. E, continua Aristóteles, “toda a cidade é evidentemente uma associação, e toda a associação só se forma para algum bem, dado que os homens, sejam eles quais forem, tudo fazem para o fim do que lhes parece ser bom”. E Santo Tomás de Aquino cunhou o termo bem comum, ou bem público, que é o bem de toda a sociedade, dando-o como finalidade do Estado. “A comunidade política existe... em vista do bem comum; nele encontra a sua completa justificação e significado e dele deriva o seu direito natural e próprio. O bem comum compreende o conjunto das condições de vida social que permitem aos indivíduos, famílias e associações alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição” (Gaudium et Spes, 74). Daí se conclui que a cidade – o Estado - exige um governo que a dirija para o bem comum. Não se pode separar a política da direção para o bem comum. Procurar o bem próprio na política é um contrassenso.
Como cristãos, nós sabemos que a base da moral e da ética é a lei de Deus, natural e positiva, traduzida na conduta pelo que se chama o santo temor de Deus ou a consciência reta e timorata. Uma vez perdido o santo temor de Deus, perde-se a retidão da consciência, que passa a ser regida pelas paixões. Uma vez abandonados os valores morais e os limites éticos, a sociedade fica ao sabor das paixões desordenadas do egoísmo, da ambição e da cobiça.
           

*Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney