SAUDAÇÕES E BOAS VINDAS

LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO! PARA SEMPRE SEJA LOUVADO!

Caríssimos e amados irmãos e irmãs em Nosso Senhor Jesus Cristo! Sêde BEM-VINDOS!!! Através do CATECISMO, das HOMILIAS DOMINICAIS e dos SERMÕES, este blog, com a graça de Deus, tem por objetivo transmitir a DOUTRINA de Nosso Senhor Jesus Cristo. Só Ele tem palavras de vida eterna. Jesus, o Bom Pastor, veio para que Suas ovelhas tenham a vida, e com abundância. Ele é a LUZ: quem O segue não anda nas trevas.

Que Jesus Cristo seja realmente para todos vós: O CAMINHO, A VERDADE, A VIDA, A PAZ E A LUZ! Amém!

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Maomé e sua religião

Extraído do "COMPÊNDIO DE HISTÓRIA ECLESIÁSTICA" escrito por São João Bosco.


   Nasceu este famoso impostor em Meca, cidade da Arábia, de família pobre, de pai pagão e mãe judia. Errando em busca de fortuna, encontrou-se com uma viúva negociante em Damasco, que o nomeou seu procurador e mais tarde casou-se com ele. Como era epilético, soube aproveitar-se desta enfermidade para provar a religião que tinha inventado e afirmava que suas quedas eram outros tantos êxtases, durante os quais falava com o arcanjo Gabriel. A religião que pregava era uma mistura de paganismo, judaísmo e cristianismo. Ainda que admita um só Deus, não reconhece a Jesus Cristo como Filho de Deus, mas como seu profeta. Como dissesse com jactância que era superior ao divino Salvador, instavam com ele para que fizesse milagres como Jesus fazia; porém ele respondia que não tinha sido suscitado por Deus para fazer milagres, mas para restabelecer a verdadeira religião mediante a força. Ditou suas crenças em árabe e com elas compilou um livro que chamou Alcorão, isto é, livro por excelência; narrou nele o seguinte milagre, ridículo em sumo grau. Disse que tendo caído um pedaço da lua em sua manga, ele soube fazê-la voltar a seu lugar; por isso os maometanos tomaram por insígnia a meia lua [toda mesquita tem na cimo da cúpula (=minarete) uma meia lua voltada para Meca]. Sendo conhecido por homem perturbador, seus concidadãos trataram de dar-lhe morte; sabendo disto o astuto Maomé fugiu e retirou-se para Medina com muitos aventureiros que o ajudaram a apoderar-se da cidade. Esta fuga de Maomé se chamou Hégira, isto é, perseguição; e desde então começou a era muçulmana, correspondente ao ano 622 de nossa era. O Alcorão está cheio de contradições, repetições e absurdos. Não sabendo Maomé escrever, ajudaram-no em sua obra um judeu e um monge apóstata da Pérsia chamado Sérgio. Como o maometismo favorecesse a libertinagem teve prontamente muitos sequazes; e como pouco depois se visse seu autor à frente de um formidável exército de bandidos, pôde com suas palavras e ainda mais com suas armas introduzi-lo em quase todo o Oriente, Maomé depois de ter reinado nove anos tiranicamente, morreu na cidade de Medina no ano 632. 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

UTILIDADES DA PENITÊNCIA


   Vamos fazer neste post um resumo das considerações do Padre Faber sobre as dez utilidades da mortificação ou penitência.
  1. Domar o corpo, a fim de submeter as paixões revoltosas ao poder da graça e à parte superior da nossa vontade. Não encontraremos em pessoa alguma a força de vontade ou a seriedade de espírito, se ela não se esforçar deveras por subjugar o corpo.
  2. Estender nosso horizonte espiritual: Criar a sensibilidade de consciência (consciência delicada - um dos maiores dons de Deus na vida espiritual). Se não é o único meio, pelo menos é um dos principais.
  3. Obter crédito diante de Deus. O sofrimento torna-se facilmente uma força perante as coisas de Deus. Quando nós queixamos de ficarem as nossas orações sem resposta, da falta de êxito dos nossos esforços para desarraigar algum pecado habitual, de cedermos às tentações, às surpresas do gênio ou da loquacidade, podemos atribuir tudo isto a nossa vida imortificada.
  4. Avivar o nosso amor a Deus. Manifestam e aumentam o nosso amor. E quando o objeto que amamos e contemplamos é, como Jesus, um objeto de dor e de sofrimentos, o amor nos excita com mais ou menos veemência a imitá-lo. 
  5. Desapegar-nos das vaidades do mundo e inundar-nos com a alegria espiritual. Nada em si é tão oposto às vaidades do mundo como a mortificação, que destrói tudo o que elas mais prezam e mais amam. A alegria espiritual, esta é como a enchente da maré, que entra por onde encontra lugar vazio. A proporção, portanto, que os nossos corações se desapegam das amizades terrenas, isto é, das afeições que não constituem para nós um dever, eles se tornam capazes de gozar da doçura de Deus. As pessoas mortificadas são sempre alegres.( Não existe santo triste, seria um triste santo). O coração se alivia por lhe ser retirado o fardo do corpo. 
  6. Impedir que cometamos um erro grave, abandonando cedo demais a Via Purgativa: Grande perigo na vida espiritual. Muitos se apressam tanto no começo, que ficam sem respiração e abandonam por completo a corrida. Assemelham-se aos insensatos que correm loucamente para fugir de sua sombra. A natureza deseja sair do seu noviciado. A alma ligeiramente fatigada de vigiar a si mesma, quer agora converter o mundo. Peca por indiscrição e zelo imprudente. A água transborda a força de ferver, apagando assim o fogo, isto é, destrói a ação do Espírito Santo, pela indiscrição. Oh! quantos santos malogrados, heróis vencidos, vocações frustradas!!! Nenhum mal resultaria em demorarmo-nos por muito tempo nas regiões inferiores da vida espiritual. Pelo contrário, elevar-nos com demasiada rapidez, expõe-nos a muitos perigos. Um mal que foi mortificado, parece estar morto à primeira vista: finge-se morto assim como os lobos. Mas, então qual será a duração da Via Purgativa? Quem o poderá dizer? Depende do fervor, do grau de humildade; mas, em todo caso, devemos contá-la por anos e não por meses.
  7. Conceder-nos o dom da oração mental. O célebre autor espiritual Da Ponte, no 3º Tratado do seu "Guia Espiritual" conta minuciosamente uma visão que se manifestou, diz ele, a uma pessoa do seu conhecimento. Deus fez ver a esta pessoa o estado de uma alma tíbia e preguiçosa, dada à oração sem a mortificação. Eis a visão: Ela viu entre uma larga planície um alicerce profundo e muito firme, branco como o marfim, e ao lado passeava um jovem de resplandecente beleza. Este chamou-a e disse-lhe: Eu sou filho de um rei poderoso, e deitei este alicerce a fim  de construir um palácio onde pudésseis morar e receber-me quando vier vos visitar, o que farei frequentemente, com a condição de terdes um quarto pronto para me receber e de abrirdes logo que eu bater. Mais tarde, porém, virei morar sempre convosco, e vos alegrareis de me ter por vosso hóspede constante. Podeis julgar pela grandeza destes alicerces do que será o edifício. Entrementes farei a construção e vós deveis trazer-me todo o material. A dama começou a tornar-se muito admirada e aflita, por achar impossível trazer ela mesma todo o material necessário. O jovem porém disse: Não temais, podereis fazê-lo facilmente. Começai por trazer já alguma coisa e eu vos ajudarei. Então ela começou a procurar em redor para ver se encontrava qualquer coisa, mas parou logo e fitou o jovem, cuja beleza a encantava e deleitava; mas não se esforçou em lhe agradar, mesmo receou muito ao ver que a vigiava. Não obstante não corou com a sua desobediência, e, enquanto ficava ociosa, viu os alicerces cobrirem-se gradualmente com pó e com palha trazidos pelo vento e por vezes tais furacões de pó se levantavam que as escondiam por completo. Ou, então, chuvas torrenciais cobriam tudo com lama, lama esta que se estendia gradualmente e era a causa de uma vegetação fértil e má. Em breve, nada restava dos alicerces, e por fim um furacão encobriu também o jovem, e tudo desapareceu da sua vista sob um montão de imundícies. A dama muito se afligiu ao ver-se só, tanto mais que em breve foi cercada por detestáveis montes de cal, de areia e de pedra. Lastimou sua tibieza e sua ociosidade, mas crendo estar o jovem ainda escondido em alguma cavidade dos alicerces, clamou em alta voz: Senhor, eis que venho! Trago comigo o material; por favor aproximai-vos da construção; arrependo-me profundamente da minha lentidão e da minha indolência. Enquanto se mantinha nestas disposições a visão lhe foi explicada pelo seguinte modo: Os alicerces significam a fé e os hábitos das outras virtudes que Jesus Cristo infunde na alma no batismo, desejando construir nela um belo edifício de alta perfeição, com a condição de a alma cooperar com Ele, trazendo o material necessário, isto é, a observância dos preceitos divinos e dos conselhos, o que poderá fazer com o auxílio de Nosso Senhor. Mas a alma tantas vezes se deleita em meditar nos mistérios de Cristo, que se torna tíbia e ociosa, não se esforçando por lhe obedecer, e por esta falta de atenção e indolência, os pecados veniais obscurecem aos poucos os hábitos das virtudes, e os olhos da alma se tornam tão turvos que não podem mais ver a Nosso Senhor. Para castigar esta apatia, Ele permite, por vezes, que a alma caia em pecado mortal, que tudo mancha e tudo destrói. Em seguida, devido à misericórdia de Deus, a alma se arrepende, e encontra as pedras da contrição, a cal da confissão, e as areias da satisfação, e em alta voz implora a Jesus que perdoe os seus pecados e comece novamente a construção. 
  8. Dar à santidade profundeza e força, assim como os exercícios de ginástica desenvolvem os músculos e os robustecem. Isto refere-se ao que foi dito há pouco, de não abandonar cedo demais a Via Purgativa. Exemplo: Simeão Estilita quando primeiro começou a se sustentar sobre a coluna, ouviu no sono uma voz lhe dizer: Levanta-te, cava a terra. Pareceu-lhe ter cavado algum tempo e depois cessado, quando a voz lhe disse: cava mais fundo! Quatro vezes cavou, quatro vezes descansou, e quatro vezes a voz repetiu: cava mais fundo! Depois disse-lhe: Agora constrói tranquilamente. Este trabalho humilhante de cavar é a mortificação. Existe infelizmente uma piedade mesquinha e pobre, uma sentimentalidade religiosa que não se eleva além da beleza da devoção ou de um cerimonial comovente, devoção boa para o dia de sol, não para a tempestade; e o erro na construção desse edifício fraco e caduco está na falta da mortificação em sua base. (Falo com experiência material e espiritual: o escultor escolhe para matéria do seu trabalho, uma madeira ao mesmo tempo, fácil de cortar e firme, que é o cedro. Assim também ao esculpir Jesus Crucificado nas almas, é mister o escultor espiritual encontrar a docilidade da humildade e a firmeza da mortificação. Não há como trabalhar em matéria mole). 
  9. Utilidade que se refere às austeridades corporais. Estas levam a alma a atingir a graça mais alta da mortificação interior. É a maior das ilusões supor ser possível mortificar o juízo e a vontade, sem mortificar também o corpo. A mortificação interior é certamente mais excelente, todavia a exterior é mais eficaz. 
  10. A mortificação é uma escola excelente onde será adquirida a régia virtude da discrição. A discrição é o hábito de dar exatamente no alvo, e, para acertá-lo, é preciso ter no olhar uma exatidão e na mão uma firmeza sobrenaturais. É sobretudo no uso da mortificação que se exerce e se prova a discrição; esta virtude se manifesta na obediência, na humildade, na falta de confiança em si, na perseverança e no desapego das próprias penitências. Exemplo: Foi esta a prova imposta pelos bispos a Simeão Estilita. Enviaram um mensageiro ordenando-lhe que descesse da coluna. Se hesitasse, eles saberiam por este sinal que sua extraordinária vocação não provinha de Deus. Mas, apenas dada a ordem começou Simeão a executá-la. Na sua docilidade os bispos reconheceram a vontade de Deus e mandaram que permanecesse onde estava.

     Grandes são, portanto, as utilidades da penitência; mas, por outro lado, devemos ter muito cuidado em evitar os perigos e ilusões na prática da mortificação: Como já me alongo e não quero cansar meus caríssimos leitores, deles falarei, se Deus quiser, no próximo post. 

PERIGOS E ILUSÕES NA PRÁTICA DA PENITÊNCIA

   Vamos seguir o Padre Faber:

   "Muitas mortificações se fazem preceder pela vanglória que toca a trombeta em frente delas. A outras, ela acompanha. A algumas fornece mesmo toda a sua vida, toda a sua animação, toda a sua perseverança. É como se este espírito maligno recebesse do seu mestre esta ordem de permanecer alerta: "Cada vez que uma alma está prestes a praticar uma mortificação, esteja perto!" O remédio para isto é praticarmos todas as nossas mortificações por OBEDIÊNCIA. Então torna-se difícil à vanglória, à ostentação, à singularidade, à afetação, à obstinação, à indiscrição, de se agarrarem às nossas penitências para corroerem a amêndoa preciosa da sua vida interior. E estes são os seis principais perigos da mortificação. Também não devemos nos esquecer de tomar precauções contra uma ideia supersticiosa que por vezes acompanha nossas austeridades e que diz respeito ao valor do sofrimento. Muita mortificação permanece mortificação quando não causa sofrimento, e o seu valor intrínseco não depende da soma de dor física e de desconforto corporal, mas da veemência da intenção sobrenatural. Mortificar é dar a morte a alguma coisa, e por esta razão a paixão já morta está mais mortificada do que a moribunda, embora esta última seja ainda susceptível de dor, enquanto que a primeira já está de todo insensível. É curioso quantos são levados inconscientemente por esta noção supersticiosa dada ao valor do mero sofrimento. Não quero dizer que este não tenha valor, mas não é a pedra preciosa; é o metal que a encaixa. Foi este erro que fora da Igreja, e por vezes também em certas pessoas em seu seio, fez nascer a ilusão de que a perfeição consiste em contrariar sempre os nossos gostos. De acordo com esta teoria, as nossas afeições e as nossas paixões nunca conseguiriam amar as coisas de Deus, ou se harmonizar com a graça. Há quem tenha escrúpulos a respeito da caridade com o próximo, porque acha nisso um grande prazer sensível, como também em visitar os pobres ou enfim em seguir uma inclinação particular na devoção. Há até diretores que impõem esta regra errônea às almas que dirigem, o que é na maior parte das vezes tão absurdo quanto indiscreto. O misticismo ortodoxo só poderia permitir semelhante máxima no caso de uma vocação clara e particular, vocação esta tão rara quanto o chamado de Santa Teresa e de Santo André Avelino, que fizeram voto de praticar sempre o que fosse mais perfeito. No entanto a Igreja hesitou ante estes votos quando foi chamada a canonizar os santos e recusou-se a continuar antes de ter a prova evidente de uma operação especial do Espírito Santo. Ninguém jamais se tornou santo, nem mesmo se aproximou da santidade, por deixar de cultivar a doçura de caráter ou as suas virtudes naturais, pelo escrúpulo do grande prazer que achavam nisso. O Jansenismo fez consistir nesta subtileza todo o segredo da perfeição. Esta ideia do ascetismo, além de odiosa, é totalmente contrária aos princípios católicos. 
   
   Às dificuldades e aos perigos da mortificação ajuntaremos uma palavra a respeito de suas ilusões. É uma matéria vasta. Guilloré, que tratou deste assunto longamente e com sua severidade habitual, resume tudo, descrevendo as quatro classes de pessoas que são sobretudo sujeitas a elas.
  1. A primeira classe dos que se iludem, abrange os que sempre levaram vida inocente, e que por esta razão se dispensam com facilidade da prática das austeridades; como nada os atrai a seguir este caminho, não tentam também atrair os outros. Não compreendem por que razão hão de maltratar um corpo tão pouco rebelde, ou lhe infligir sofrimentos tão constantes, quando raras vezes os importuna.
  2. A segunda classe compõe-se dos que, apesar de não terem levado vida inocente, acham-se, não obstante, por causa do seu temperamento apático, indispostos às austeridades. Custam a crer que uma coisa tão acima de sua cobardia, como é esta perseguição de si mesmos, possa ser necessária e indispensável. Concordam quanto a sua utilidade, mas não quanto a sua necessidade; pois neste caso onde estaríamos nós? As suas teorias sobre a perfeição ou suas aspirações sentimentais para obtê-la desaparecerão como fumaça. 
  3. A terceira classe dos iludidos é a dos que ofenderam gravemente a Deus, e julgam por isso que não devem pôr termo às suas austeridades. Deste modo saem dos limites da sã razão, de um lado, e das inspirações da graça, do outro. 
  4. A quarta classe compreende os homens de zelo ardente e de temperamento entusiasta, que encontram a paz na guerra, o repouso na luta, e que satisfazem a natureza, castigando os seus corpos. 
    Ao terminar, gostaria de acrescentar ao que acabamos de ler da pena do Padre Faber, o seguinte: Nunca devemos esquecer que o valor intrínseco da mortificação não depende, na verdade, da soma de dor física e de incômodo corporal mas da veemência do amor de Deus com que a fazemos. Assim, uma grande penitência feita com pouco amor a Deus teria menos valor que uma pequena mas feita com grande amor de Deus. Mas também é óbvio que as extraordinárias penitências em alguns santos, eram sinal e efeito do seu extraordinário amor a Deus. Não esqueçamos, outrossim, que os santos em tudo e especialmente na prática das penitências eram profundamente humildes, totalmente discretos ou prudentes e docilmente obedientes aos seus diretores espirituais. E aí não há lugar para ilusões nem perigos. 

PENITÊNCIA EXTERIOR

   A penitência exterior também é importante. É o fruto, manifestação e natural consequência da penitência interior. 
   O homem não peca só com a alma, mas também com o corpo: os dois são cúmplices no ato do pecado. É justo, por conseguinte, que não só se doa a alma, mas também o corpo; e que o corpo e a alma conspirem, a uma, no exercício da penitência.

   MOTIVOS DA PENITÊNCIA EXTERNA:

  1. Conserva melhor a sensibilidade na submissão ao espírito e no cumprimento de tudo o que nos impõem os deveres do nosso estado. Se damos ao corpo tudo o que ele reclama, se afastamos dele tudo o que o mortifica, tornamo-lo indolente, inapto para o trabalho, revoltoso e indomável. Mas à força de penitência, o corpo se torna dócil, submisso, não se revolta tão facilmente contra o espírito e se torna mais apto para a virtude.
  2. Ajuda-nos a obter certas graças: como luzes na meditação, solução de certas dificuldades, socorro nas tentações, diminuição nos ataques da impureza, fervor na oração e união com Deus. Para todas estas graças é excelente a prática da penitência. Santo Inácio derramou muitas lágrimas e fez muitos jejuns para obter a luz celeste na redação de suas Regras e Constituições. Santo Tomás de Aquino se dispôs com sangrentas disciplinas para a interpretação das passagens difíceis da Sagrada Escritura. No Prefácio da Missa no tempo quaresmal diz-se: "Corporali jejunio vitia comprimis, mentem elevas, virtutem largiris et praemia" = "Com o jejum corporal reprimis os vícios, elevais a mente, concedeis virtudes e prêmios". É por isso que no tempo da Quaresma nos sentimos mais inclinados à virtude, santos e consoladores pensamentos nos iluminam a mente e nos movem o coração. 
  3. Satisfaz pelos pecados passados e pela pena temporal que lhes é devida. Desta maneira a penitência é uma réplica do espírito à rebelião da carne, e torna-se um ato de justiça, restabelecendo a ordem. Por este motivo, a prática da penitência nos é, todos os dias, necessária, pois todos os dias pecamos. Somos como um barco, que mete água, e que todo o dia deve ser esvaziado. É, pois, uma loucura deixar a solução desta dívida para a eternidade, onde a expiação será mais longa e penosa e sem merecimento. Agora tudo o que fazemos pela satisfação dos nossos pecados é fácil, proveitoso e meritório. Dizia Santo Agostinho: "Hic ure, seca, hic non parcas, ut in aeternum parcas" = "Aqui (Senhor) queimai, cortai, aqui não me poupeis, para que me poupeis na eternidade". É bom que nos exercitemos, cada dia, em algum ato de penitência para satisfazer a Deus pelos nossos pecados. 
  4. O exemplo dos Santos nos deve também mover à penitência, e, em primeiro lugar, o de Nosso Senhor Jesus Cristo, que passou quarenta dias de rigoroso jejum. E dos Santos, qual é o que não fez penitência? Todos se deram a ela com ardor, e só a obediência e a consideração de um bem maior lhes punha limites a suas rigorosas austeridades. O espírito de penitência é, pois, próprio de todo o cristão.
    PRÁTICA DA PENITÊNCIA: De três maneiras podemos praticar a penitência:
  1. Na comida. Quando nos privamos do supérfluo, ainda não é penitência; é só temperança. Praticamos a penitência, quando nos privamos do conveniente, e até do necessário contanto que nisto não prejudiquemos a saúde, nem nos exponhamos a alguma enfermidade. Moderar o excesso é temperança; cercear o conveniente é penitência. O jejum é penitência, porque nos impõe uma única refeição ao dia. Como a penitência não é fim, mas somente meio, devemos exercê-la tanto quanto conduz à nossa santificação. O que dissemos da comida, se deve dizer da bebida; e nesta, principalmente, convém exercitar a penitência; porque as sua abstenção não prejudica a saúde, antes a favorece. Nunca devemos fazer penitência de passar sede, pois, a água é indispensável para a saúde. Podemos sim, e devemos, caso passemos alguma sede inevitável, oferecê-la a Deus,com amor. 
  2. No dormir. Enquanto ao dormir, exercita-se a penitência tirando ao sono conveniente quanto se pode tirar sem prejuízo da saúde. Tirar o supérfluo de coisas delicadas e moles não é penitência, mas simplesmente temperança. Os Santos todos faziam penitência no modo de dormir: uns dormiam no chão, outros com uma pedra por cabeceira (vi em Pádua o travesseiro de Santo Antônio, - uma pedra; vi em Ávila o travesseiro de Santa Teresa, - um pedaço de madeira); outros colocavam alguma coisa para tornar o leito incômodo. Se o Espírito Santo nos mover a usar de alguns destes modos de penitência, devemos consultar o nosso diretor espiritual, para em tudo nos guiarmos por seus conselhos. Se ele não permitir, nunca devemos fazer. Do contrário, se a pessoa persistir no intento e desobedecer, é sinal de que não se tratava de inspiração do Espírito Santo mas do espírito maligno. Levantar cedo, desde que durma o necessário para a saúde, é uma ótima penitência: faz bem à saúde e à santidade. No tempo da Quaresma até o tempo da Paixão, os sacerdotes rezam no Breviário todos os dias: "Non sit vobis vanum mane surgere ante lucem, quia promisit Dominus coranam vigilantibus" = Não vos pareça coisa supérflua levantar bem cedo antes de aparecer a luz, porque o Senhor prometeu uma coroa aos que vigiam".
  3. No castigo do corpo. Este gênero de penitência consiste em causar a dor em nosso corpo com cilícios, disciplinas, cordas etc, que provocam dor, contanto que não prejudiquem a saúde. A penitência será sem perigo para a saúde e ao mesmo tempo deverá causar incômodos à nossa natureza inclinada à sensualidade. Na ascese inaciana castiga-se a carne conservando-a apta para o trabalho. Quem se preocupa DEMASIADAMENTE  com a saúde do corpo, termina prejudicando a do corpo e a da alma. Prejudica a saúde da alma, porque não faz penitência nenhuma; prejudica a saúde corporal, porque a preocupação demasiada com a saúde já é uma doença. Mas é mister estar sempre lembrando: a penitência deve ser discreta (o mais oculta possível, com muita prudência), humilde e obediente. 
     Ditosa penitência, que paga a dívida das nossas culpas, lavra a coroa da nossa glória, domina os nossos apetites, desfaz as nossas dúvidas, diminui os nossos vícios, obtém-nos as graças de Deus e estreita-nos à Cruz de Cristo! 

ESPÉCIES DE PENITÊNCIA

   Ouçamos o Padre Alexandrino Monteiro, S.J.:

   "A penitência é a virtude pela qual destruímos em nós o pecado e satisfazemos por ele a Deus. Ora, o pecado apresenta um duplo caráter: um interior, enquanto nos afasta de Deus; e outro exterior, enquanto nos inclina à criatura. Portanto, a penitência apresenta um duplo efeito: converter-nos a Deus, e afastar-nos da criatura. A conversão a Deus constitui a penitência interna. Por outras palavras: a penitência interior consiste nos atos de contrição e propósito; a penitência exterior consiste na punição dos abusos das nossas faculdades exteriores e das criaturas, e caracteriza-se pelo sofrimento que exerce nos sentidos do corpo. 
   
   A penitência interior é a principal, e, por assim dizer, a alma da penitência, visto o pecado residir propriamente na vontade. Sem a penitência interior, a exterior de nada vale. A penitência exterior é o fruto da interior, porque é o castigo dos pecados cometidos. 

   Segue-se daqui que a penitência exterior é tão necessária, que, sem ela, se pode duvidar da interior, da qual a exterior é parte integrante e natural complemento. Pelos frutos se conhece a árvore. Assim como pelos frutos se conhece a boa qualidade da árvore, assim pelos atos da penitência exterior se conhece a boa qualidade da penitência interior, donde eles procedem. Uma alma revela-se verdadeiramente penitente pelas lágrimas, suspiros, golpes no peito (como Jesus mostra o publicano rezando no Templo), jejuns e disciplinas. Pelo contrário, um pecador que não manifesta em algum ato a sua compunção, dá, por isso mesmo, um indício de impenitência interior.

   Desta doutrina se deduz que a penitência exterior é uma virtude universal, de todas as pessoas e de todos os tempos, não só dos monges e anacoretas, mas também das rainhas e dos reis, dos servos e dos senhores; não só da idade média, mas também da moderna; porque em todas as classes e em todas as idades há pecadores.

   A penitência nunca passará da moda. As leis, os costumes, as praxes sociais mudam-se com os tempos; a penitência permanecerá sempre obrigatória para quem naufragou na inocência. O eco da pregação do Batista: - Fazei penitência! - continuará a ressoar desde as margens do Jordão até aos mais longínquos âmbitos da terra, e até à consumação dos séculos. 

PENITÊNCIA INTERIOR

   A penitência interna é uma virtude tão necessária, que a Sagrada Escritura se refere a ela com palavras inequívocas:
   "Se não fizerdes penitência, todos igualmente perecereis" (Lc 13,5).
   "Se não fizermos penitência, cairemos nas mãos do Senhor" (Ecli 2, 22).
   "Convertei-vos e fazei penitência" (Mt 3,2).
   "Se o pecador fizer penitência, esquecer-me-ei dos seus pecados" (Ez 18,21).

   A penitência interior é uma virtude fácil. É um ato livre da nossa vontade. Basta ter olhos para chorar, vontade para querer, coração para amar. O Senhor está pronto a nos dar o perdão ao menor ato de arrependimento. E se nos dá tudo para a vida natural, quanto mais para a sobrenatural?

   A penitência interior é uma virtude, que se pratica prontamente: é como um raio de luz que passa; um relâmpago que ilumina; um - ai, Jesus! - do coração; um sincero - pequei! - da alma; uma lágrima dos olhos e nas faces. 

   A penitência interior é uma virtude eficaz. Ainda que reneguemos de Cristo como Pedro; ainda que persigamos a Igreja, como Paulo; ainda que professemos a heresia como Agostinho; ainda que escandalizemos o próximo, como Madalena, se fizermos penitência, seremos como eles perdoados. 

   A penitência  é uma virtude interior, não só do corpo, senão da alma, ainda que muitas vezes se revele em lágrimas ardentes; sobrenatural, não humana, mas divina; excitada pelo temor do castigo, pela consideração dos novíssimos da alma, pela bondade de Deus, pela Paixão do Redentor; suma, enquanto à vergonha e contrição; universal, porque se estende a todos os pecados com firme propósito de evitar os cometidos e os que se possam vir a cometer.
   Esta contrição perfeita, informada pela caridade, que aformoseia a alma e a purifica de toda a mancha, e que a faz entrar no número dos filhos de Deus, devemos procurar gravá-la no íntimo do nosso coração, e não deixá-la mais, mas segurá-la com ambas as mãos, como o náufrago segura a tábua, com que se salvou do naufrágio. (Depois, faremos algumas postagens sobre a compunção). 

Nota: No próximo post falaremos da penitência exterior.

PENITÊNCIA E MORTIFICAÇÃO

   "Se viverdes segundo a carne, morrereis, mas se, pelo espírito, fizerdes morrer as obras da carne, vivereis" (Rom. VIII, 13). 
   Amar a Deus sobre todas as coisas, de todo o coração, com todas as forças, eis o grande mandamento. No céu O amaremos naturalmente, necessariamente, infinitamente. Igual coisa não se dá na terra. No estado atual da natureza decaída, é impossível amar a Deus com amor verdadeiro e efetivo sem esforço, sem sacrifício. É o que resulta das tendências da natureza corrupta que permanece no homem, mesmo regenerado pelo Batismo. Não podemos amar a Deus sem combater estas tendências. Por isso Nosso Senhor disse: "Se alguém quer vir após mim, abnegue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me" (S. Mat. XVI, 26). Seguir a Jesus Cristo é amá-Lo. A condição de O seguir e amar é renunciar a si mesmo, isto é, às más inclinações da natureza, o que se consegue pela prática da mortificação. A mortificação é deveras amor por Jesus, um amor que reveste a forma de sacrifício para O imitar, para exprimir sua própria veemência e para garantir a sua própria perseverança. Não pode haver nenhum amor real e duradouro sem uma certa quantidade de mortificação: é necessária para evitar o pecado e observar os mandamentos(1º grau para evitar o pecado mortal; 2º grau para evitar o pecado venial). Sem ela não haverá tão pouco, perseverança sólida na vida espiritual. A compunção, de que falaremos em um próximo post, alimentando na alma uma habitual detestação do pecado, contribui muito eficazmente para fazer desaparecer os obstáculos que nos poderiam impedir de seguir Nosso Senhor Jesus Cristo. A uma sincera compunção corresponderão forçosamente em nós os atos de penitência. 
   O Padre Faber, antes de falar sobre as utilidades da mortificação, refuta alguns erros e responde a algumas objeções: (No próximo post falaremos das UTILIDADES DA PENITÊNCIA).
     "Na opinião de algumas pessoas, a mortificação corporal é menos necessária nos tempos modernos do que outrora, e por conseguinte, as recomendações feitas sob este título só devem ser aceitas com muita reserva. Se isto significa que a Igreja requer um grau menor de mortificação exterior do que nos tempos passados para reconhecer a santidade de hoje, nada pode haver de mais errôneo. É quase uma proposição condenada. Se porém, significar que o crescido número de moléstias, e a generalidade das moléstias nervosas, sugerem discretamente uma alteração no gênero de mortificação, podemos aceitar, mas sempre com  desconfiança e escrupulosas restrições. O grau de mortificação e os seu espírito continuaram a ser os mesmos em todas as épocas da Igreja: porquanto a penitência é um sinal imperecível da Igreja. Fazer penitência porque o reino do céu está próximo, é a tarefa especial da alma justificada. Para obter a graça, para conservá-la e multiplicá-la, precisamos a cada passo da penitência. Quando dizemos que a santidade é um dos caracteres da Igreja Católica, fazemos ver a necessidade da mortificação: uma supõe a outra; aquela induz esta. Por isso o exercício heroico da penitência, deve ser de antemão provado perante a Igreja, para que ela proceda a canonização de um santo. 
   "O luxo moderno e costumes moles que se alegam muitas vezes em favor de uma diminuição da mortificação, podem também servir para defender o ponto de vista oposto. Pois, sendo ofício especial da Igreja dar testemunho contra o mundo, deve este testemunho consistir em atacar os vícios reinantes da sociedade, e por conseguinte deve fazê-lo nestes dias (dias do Pe. Faber, hoje muito mais) contra a moleza, o culto do conforto e as extravagâncias do luxo. Creio (continua o Pe. Faber) que se algum dia a infeliz Inglaterra se converter, será por uma ou mais ordens religiosas, que mostrarão a um povo degradado e cheio de vícios, a pobreza evangélica na sua mais austera perfeição.
     O mundo, a carne e o demônio permanecem realmente os mesmos em todos os tempos, e assim também a mortificação corporal presta os mesmos serviços.

   Quanto a objeção de que hoje há mais doenças nervosas, diz o Pe. Faber: "Lembremo-nos dos nossos antepassados, que pouco se incomodavam com os seus nervos e não bebiam chá. Estavam habituados a ouvir a palavra do Pe. Baker, o intérprete da antiga tradição mística, que dizia que um estado de saúde robusta incapacita para atingir as fases mais elevadas da vida espiritual". 

   É claro que o Padre Faber mostra a necessidade da discrição e da orientação do diretor espiritual na prática das penitências maiores. Embora  iremos falar sobre este aspecto na prática da penitência, julgo útil já lembrar "per transenam" que as penitências nunca podem prejudicar a saúde e impedir ou dificultar o cumprimento dos deveres de estado. 

   Outra objeção: "Contentemo-nos com as provações enviadas por Deus, que não são nem poucas nem leves. 
    Resposta: "Sim, a melhor de todas as penitências é receber em espírito de compunção interior as mortificações que Deus, na sua Sabedoria e na sua amorosa e paternal Providência, nos envia; mas, sem o generoso hábito das penitências voluntárias, não é muito provável conseguir adquirir este espírito interior de penitência e portanto tirarmos todo o proveito das provações involuntárias que Deus nos manda.

   Depois o Padre Faber faz uma observação que vale muito mais para os nossos dias de "americanismo". "Os hábitos, diz ele, da nossa vida presente e os pensamentos que nos acompanham, nos conduzem a uma sensível falta de simpatia para com a contemplação. Esta não apresenta (como a vida das obras), resultados nos quais possamos nos comprazer ou ostentar. Tudo que é impalpável parece inútil e sem êxito completo, tudo é desilusão. Os princípios sobrenaturais estão desvalorizados em nossos dias. (O que devemos dizer hoje!!!). Ora, é fácil ver como esta falta de simpatia para com a contemplação conduz a um falso juízo sobre a austeridade. 

   "De todas estas considerações, continua o Pe. Faber, é justo concluir que nada nos dispensa, nos tempos modernos da obrigação ou do conselho da mortificação corporal. Pelo contrário, há muita coisa nos hábitos de hoje que deve aumentar esta obrigação e fortificar este conselho; e todas as modificações sugeridas pelas circunstâncias atuais da vida moderna se referem inteiramente ao gênero da mortificação e, de modo algum, ao grau. 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Entrevista do Cardeal D. Agnelo Rossi em 1974 - ( I )

 Sua Eminência o Sr. Cardeal D. Agnelo Rossi, então Prefeito da Sagrada Congregação para a Evangelização do Povos, concedeu uma entrevista que foi publicada no jornal do Vaticano "L'Osservatore Romano" de 15 de setembro de 1974.

   Entrevistador: Senhor Cardeal, segundo o seu parecer, quais são os pontos principais a destacar, hoje, quando se fala de evangelização? Quais devem ser, a seu juízo, as prioridades a ressaltar, para dar um impulso sério à evangelização? 

   D. Agnelo Rossi: "Responderei, com muito prazer, às suas perguntas, empregando uma linguagem simples e acessível a todos, evitando termos equívocos, hoje empregados para semear confusão e dúvidas, porque creio que a palavra foi-nos dada por Deus para esclarecer a realidade. 
   Em qualquer obra de evangelização (mesmo quando não entendida estritamente como atividade missionária mas como ação pastoral completa) devem-se sublinhar os seguintes pontos fundamentais:
  1. Anunciar Cristo, não como um simples homem, filósofo ou profeta, mas como Filho de Deus feito homem, único Redentor da humanidade, à qual comunicou a "boa nova", isto é, a revelação de Deus Uno e Trino que ama, como o melhor dos pais, a sua criatura humana e a torna participante da própria vida divina. Por outras palavras, Deus é Pai amoroso de todos os homens, que são irmãos, sem discriminação de raça ou nacionalidade e, portanto, devem ser orientados para uma convivência e solidariedade fraternas.
  2. Cristo incorpora-nos, pelo Batismo, à família ou povo de Deus, à sua Igreja, "sacramento de salvação" e depositária da doutrina revelada bem como dos meios de salvação.
  3. Necessidade de fé e de testemunho de vida cristã ao mundo, que quer conversão a Deus aceitando Cristo e a sua Igreja, como historicamente Ele a estabeleceu, sobre Pedro e os Apóstolos, embora com as devidas adaptações aos tempos e lugares, mas sem modificá-la substancialmente.
   As prioridades, a que se refere, são evidentemente as mesmas de Cristo; Ele foi enviado pelo Pai, encarnou, deu exemplo de santidade e depois ensinou. 
    O missionário ou o apóstolo não é um disco ou um mero microfone. É um homem enviado, credenciado por Deus para testemunhar, com os seus atos e palavras, o infinito amor do Pai aos homens (amor teológico). Pois não bastam para tanto gestos de filantropia (puro amor humano ao próximo) ou técnicas de desenvolvimento material. Estes atos, sem o amor teologal podem ser interpretados como táticas políticas, enquanto o genuíno amor, que procede de Deus eleva a Deus, é a marca do Senhor. Só esta santidade será a força propulsora da verdadeira evangelização. Evangelizar, como vimos, é anunciar Cristo e a sua Igreja para a salvação dos homens. E sem fidelidade absoluta a Cristo e à sua Igreja não se pode evangelizar. 
    Deus Redentor, que se manifesta em Cristo, é o mesmo Deus Criador que fez o homem à sua imagem, para que o pudesse conhecer, amar e entrar em comunicação com Ele. Por isso depositou no coração do homem uma ânsia do infinito, uma sede de Deus que nem os ateus conseguem destruir cientificamente quando tentam substituir Deus por ídolos (frágeis ídolos, quer sejam líderes comunistas, quer astros do cinema).
   O ateísmo é, em certo sentido, um prolongamento daquele antropocentrismo que, subvertendo a realidade, coloca o homem no centro e lhe dá a supremacia; infelizmente, esta mentalidade influiu em certos meios católicos secularizados, que só se interessam por Cristo-homem, amigo e defensor dos oprimidos, ou por Cristo-libertador, em sentido revolucionário. 
   Como devemos evangelizar homens concretos, em determinados lugares e situações diversas, nem sempre é possível anunciar-lhes imediatamente Cristo. Então, unicamente por razões metodológicas, é preciso recorrer a processos de pré-evangelização, mais ou menos longa e sempre adequada às circunstâncias, a fim de lograr a encarnação e, às vezes,até a credibilidade da mensagem evangélica. 
   Quando, porém, as circunstâncias permitem e favorecem a evangelização, esta mesma já contém em si todos os germes de uma autêntica humanização, colocando as bases sólidas para afirmar a dignidade humana e uma convivência social justa; então, 'evangelizando se humaniza", sem precisar de destacar dois períodos de tempo distintos. Quando ocorre a necessidade de uma anterior pré-evangelização, esta deve ser tida apenas como uma prioridade de método, não de finalidade. Muitos exageram de tal forma a exigência do estudo do método que praticamente relegam a evangelização para o fim do mundo. Se os Apóstolos tivessem agido assim, o Concílio de Jerusalém ainda não teria acabado. 


   
    
     

Entrevista do Cardeal D. Agnelo Rossi em 1974 - ( II )

   Entrevistador: De que forma influem na obra de evangelização as ideias que reduzem a mensagem evangélica a uma questão ou ação humanitária, mais ou menos brilhante? O que é próprio e específico da evangelização? O que a distingue de qualquer outra obra humanitária ou social?

   D. Agnelo Rossi: Devo dizer que um tipo de "evangelização", de sabor marxista ou burguês, não é nem pode ser o sal da terra nem a luz do mundo. É uma caricatura grotesca que acentua exageradamente alguns traços que deviam ser menos salientes e silencia ou nega os aspectos fundamentais do cristianismo. É uma grave redução da fé cristã, quando não mutilação ou negação da vida espiritual e do sobrenatural. 
   O homem moderno (...) está saturado dos produtos que a sociedade de consumo põe à sua disposição e, não encontrando neles a felicidade, é tentado pelo desespero.
   Parece-me muito interessante e útil comparar as duas juventudes: a do Terceiro Mundo que tem ideais, desfruta de alegrias, nutre esperanças e realiza grandes coisas; e a juventude do mundo superdesenvolvido que, em geral, se afoga na revolta e na contestação, na angústia e se sente infeliz, descontente, não-realizada porque não consegue preencher o vazio profundo de sua alma, descuidada espiritualmente, praticamente negada, mas inclementemente presente e reclamando um ideal. 
   Enfim, inculcar no espírito de um país subdesenvolvido incontidas e imediatas ambições de conquistas hodiernas do desenvolvimento puramente material é o mesmo que inculcar num simples camponês que, para ser verdadeiramente feliz e realizado, necessita abandonar a terra amada onde nasceu, para ir usufruir as delícias da cidade, no meio da abundância de bens...; quando na crua realidade quotidiana encontrará , na "civilização urbana", mentira, crime, exploração, desemprego, misérias e até mesmo a fome. É a parábola do filho pródigo que se repete...
   Impressionou-me o caso de um camponês que, visitando a cidade e olhando para uma vitrine de jóias e utilidades, dizia satisfeito: "Tantas coisas de que eu não tenho necessidade!". E, no entanto, há senhoras, repletas de jóias, que se sentem infelizes por não poderem adquirir outras ainda mais preciosas...
   Esta é a história da humanidade; povos subdesenvolvidos materialmente podem ser fortes espiritualmente e desfrutar de entusiasmos e ideais, enquanto nações desenvolvidas tecnicamente, que não concedem o primado ao espírito, estão enfermas e caminham para o suicídio.
   É este o crime dos mercadores que, em vez de verdades salvíficas do Evangelho, que geram paz, alegria e felicidade, (os santos são os homens mais felizes do mundo!) oferecem o prato de lentilhas do desenvolvimento meramente humanitário. E o que é pior ainda, criticam a Igreja fazendo-a responsável pela falta de assistência às necessidades materiais dos homens, tais como a alimentação, habitação, saúde e ensino, como se a Igreja fosse o Ministério das Finanças, a que recebe os impostos e a primeira responsável pelo bem-estar material do povo.
   Entretanto a história, e sobretudo a das Missões, prova que a Igreja tem sido sempre benfeitora dos povos e nações. Ainda hoje, é pioneira de obras sociais e educativas em muitos lugares e a primeira a chegar para socorrer eficazmente nas grandes calamidades públicas. O amor cristão consegue multiplicar  pão, remédios, atenções, mesmo com parcos recursos pecuniários. Também não desconhecemos as nossas falhas e deficiências, pois somos homens e não anjos. 
   Para responder a algumas perguntas aqui formuladas deveríamos repetir algo já dito na primeira resposta, o que não é recomendável. 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

A LIBERDADE DE CRISTO

   "Deo volente", faremos aqui neste post a Exegese Tradicional da passagem bíblica: Epístola aos Gálatas IV, 31: "Por isso, irmãos, não somos filhos da escrava, mas da livre: e é com esta liberdade que Cristo nos fez livres".

   Obs.: Na Bíblia moderna  está em Gálatas V, 1: "Para a liberdade foi que Cristo nos libertou". 

   EXEGESE TRADICIONAL: Em primeiro lugar é preciso saber o motivo da Carta de São Paulo aos Gálatas. Este foi: Alguns cristãos vindos do judaísmo e muito apegados às práticas legais, introduziram-se nas Igrejas da Galácia, sustentando que a circuncisão e outras práticas da lei eram necessárias a todos para se salvarem e serem herdeiros das promessas messiânicas (Cf. At 15, 1). Era distorção do genuíno Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo que São Paulo pregava. Aqueles turbulentos, para insinuarem com mais segurança os seus erros, afirmavam que Paulo não era verdadeiro apóstolo, por não ter recebido a missão diretamente de Cristo; que estava em desacordo com os verdadeiros apóstolos e que era um oportunista que andava à procura unicamente de favores dos homens. 

   São Paulo condena a heresia daqueles que, mesmo depois do que foi decidido pelos Apóstolos no Concílio de Jerusalém, ainda ensinam que para o homem ser um justo perante Deus, é necessária a observância daquelas cerimônias e prescrições da lei mosaica, a começar pela circuncisão. São Paulo no capítulo III, 28 diz: "Não há judeu nem grego, não há servo, nem livre, não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Jesus Cristo". O Apóstolo. dirigindo-se àquele grupo de rebeldes, que insistem  na necessidade da circuncisão,  emprega uma acerba zombaria, que São Jerônimo ameniza traduzindo num latim mais polido: "Utinam et abscindantur que vos conturbant". Talvez São Paulo também quisesse ironicamente lembrar a escravidão do fanatismo pagão que levava muitos homens a se castrarem no ritual que fazia parte do culto do deus Atis e da deusa Cébele (Isto na Ásia Menor já no s. III a. C.). 

   São Paulo nesta Epístola aos Gálatas, através da alegoria de Sara e Agar, queria ensinar o seguinte: Por que escravizar-se à lei judaica se a Redenção está prometida ao discípulos de Cristo e não aos sequazes de Moisés? Suaves e perfeitíssimas, as leis evangélicas dispensam-nos da pesadas e ineficazes práticas da lei antiga. 

   Vejamos, agora, como gozar dessa liberdade preconizada por São Paulo. Alforriados da Lei de Moisés, passamos para a Lei do Evangelho. É óbvio que a liberdade à qual se reporta São Paulo, não é a independência, absoluta e a licença de praticar indistintamente o bem e o mal; e, sim, aquela atitude interior definida pelos Escolásticos como "o poder de agir de acordo com a razão". A independência absoluta não a possuía nem mesmo o próprio Deus; pois ainda que acima d'Ele não haja outra autoridade a quem dar conta de seus atos e tudo possa o que Ele quer, ainda assim é-lhe rigorosa e fisicamente impossível desejar, querer e aprovar algo que não seja santíssimo e sapientíssimo.

   Assim é que, livrando-nos da lei antiga para sujeitar-nos ao seu Evangelho, Nosso Senhor isentou-nos das obrigações do judaísmo que oprimiam, dando-nos novos mandamentos que nos elevam. Lá na Lei antiga, havia um emaranhado de tradições, artigos e prescrições que, acrescentando-se aos preceitos divinos (Decálogo), aumentavam com o passar dos anos, sufocando as almas dos seus adeptos. Aqui, na Nova Lei do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo o único preceito do amor que, a todos acessível, transforma em suave fardo o próprio peso da Cruz. Mostrava a lei antiga o caminho do bem, mas negava a força para realizá-lo; aponta-nos o Evangelho a virtude e proporciona-nos os meios para consegui-la. Com "as tradições antigas", os judeus escravizavam ao infeliz povo judaico. Com o seu Evangelho, Jesus Cristo liberta as almas dos homens. 

   Submisso, embora, aos preceitos evangélicos, o discípulo de Cristo goza de verdadeira liberdade. Se as paixões o tentam, nele encontram um rochedo que não se comove. Se os encantos o atraem, nele encontram um sábio que não se vende. Às riquezas apenas dando o valor que merecem, delas serve-se sem ostentação, jamais a elas escravizando-se. E, conservando aquela nobre altivez que Jesus Cristo confere a seus discípulos, não se curva aos felizardos do século e não se humilha aos poderosos do mundo. Enfim, mais que todos pode afirmar a sua independência, pois onde os outros obedecem por servilismo ou por força, ele obedece com dignidade. Nas autoridades humanas vendo apenas um homem, os homens perdem diante de um seu semelhante sua liberdade. Nelas vendo, porém, a imagem de Deus, o cristão pode afirmar com toda a razão que tão somente se curva ao jugo divino.

   Mas "a liberdade dos filhos de Deus", não é a licença desenfreada que lhes outorga o direito de fazerem tudo o que querem, e sim o poder de fazerem tudo o que devem". (Chovin).  Esta, caríssimos, a verdadeira liberdade que Nosso Senhor Jesus Cristo nos outorgou com o seu Sangue preciosíssimo. 

  

   

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

A SANTA LITURGIA

   Já no antigo Testamento, tinha Deus regulado minuciosamente as observâncias do culto que se lhe devia prestar. Determinara, em todos os seus pormenores, o número e natureza dos sacrifícios, que os homens deviam oferecer-Lhe. Todas estas cerimônias descritas no Levítico, eram, apenas, um símbolo do culto espiritual, que Deus iria exigir no novo Testamento. Só por isso não temos dificuldade em entender o porque das exortações de  Pio XI: "A Liturgia é coisa sagrada. Por ela nos elevamos a Deus e com Ele nos unimos. Testemunhamos-Lhe nossa fé e agradecemos-Lhe os benefícios e auxílios recebidos, dos quais perpetuamente necessitamos. Daí, um estreito elo entre o dogma e a Liturgia sagrada, como também entre o culto cristão e a santificação do povo. Eis por que Celestino I considerava o cânon da fé expresso nas veneráveis fórmulas litúrgicas, quando dizia: 'A lei da prece deve estabelecer a lei de crer' ("DIVINI CULTUS", sobre a Liturgia, Introdução). E não menos sábias foram as palavras de São Pio X: "Entre os cuidados do ofício pastoral, não somente desta Suprema Cátedra, que por imperscrutável disposição da Providência, ainda que indigno, ocupamos, mas também de todas as Igrejas particulares, é, sem dúvida, um dos principais o de manter e promover o decoro da Casa de Deus, onde se celebram os augustos mistérios da religião e o povo cristão se reúne, para receber a graça dos Sacramentos, assistir ao Santo Sacrifício do altar, adorar o augustíssimo Sacramento do Corpo do Senhor e unir-se à oração comum da Igreja na celebração pública e solene dos ofícios litúrgicos. Nada, pois, deve suceder no templo que perturbe ou, sequer, diminua a piedade e a devoção dos fiéis, nada que dê justificado motivo de desgosto ou de escândalo, nada, sobretudo, que diretamente ofenda o decoro e a santidade das sacras funções e seja por isso indigno da Casa de Oração e da majestade de Deus" (MOTU PROPRIO "TRA LE SOLLICITUDINE, Introdução).  


 Podemo-nos admirar que a Santa Igreja, nossa Mãe, rodeie de tanta magnificência o culto sublime onde se destaca a imolação do Homem-Deus a seu Pai? Por isso, no Santo Sacrifício da Missa, nada pode haver de arbitrário ou de humano. Prescrevendo as cerimônias que o acompanham, a Santa Igreja sempre se cingiu aos ensinamentos do divino Mestre, consignados nos escritos sagrados ou transmitidos pela Tradição Que tristeza nos causa o que hoje, após o Concílio Vaticano II, vemos por toda parte!. Até o Vaticano II, que sublime beleza em todo o culto divino! Arrebatou de admiração os maiores santos e, coisa maravilhosa, até os próprios descrentes. 

   Caríssimos, o cristão será membro do Corpo Místico de Cristo na medida em que viver a vida litúrgica segundo à Tradição da Santa Madre Igreja. Todas as profanas novidades introduzidas na Liturgia só servem para diminuir e até arrancar a fé dos corações dos fiéis. Que coisa terrivelmente lastimosa!!! Já que sem a fé é impossível agradar a Deus. 

   Mas não nos contentemos com fórmulas externas, cerimônias ou ritos sacros. A piedade interior, o amor profundo, generoso e cordial a Deus, Nosso Pai que está no Céu, é o que constitui a alma da Santa Liturgia. 

   Caríssimos, quero, para terminar, deixar um conselho: Façamos o propósito de assistir, juntamente com a Santíssima Virgem Maria ao pé da cruz, a todas as Santas Missas celebradas devidamente em todo o Universo. Isto em reparação das profanações e sacrilégios, que, também em todo o Universo, são hoje, infelizmente, perpetrados.