SAUDAÇÕES E BOAS VINDAS

LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO! PARA SEMPRE SEJA LOUVADO!

Caríssimos e amados irmãos e irmãs em Nosso Senhor Jesus Cristo! Sêde BEM-VINDOS!!! Através do CATECISMO, das HOMILIAS DOMINICAIS e dos SERMÕES, este blog, com a graça de Deus, tem por objetivo transmitir a DOUTRINA de Nosso Senhor Jesus Cristo. Só Ele tem palavras de vida eterna. Jesus, o Bom Pastor, veio para que Suas ovelhas tenham a vida, e com abundância. Ele é a LUZ: quem O segue não anda nas trevas.

Que Jesus Cristo seja realmente para todos vós: O CAMINHO, A VERDADE, A VIDA, A PAZ E A LUZ! Amém!

domingo, 28 de maio de 2017

HOMILIA DOMINICAL - Domingo depois da Ascensão

   Leituras: Primeira Epístola de São Pedro Apóstolo IV, 7-11.
                    
                   Continuação do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João, XV, 26-27; XVI, 1-4:


   "Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: Quando vier o Consolador que eu vos enviarei do Pai, o Espírito de verdade, que procede do Pai, Ele dará testemunho de Mim. E vós também dareis testemunho, porque estais comigo desde o princípio. Estas coisas vos digo, para que não vos escandalizeis. Lançar-vos-ão fora das sinagogas; e virá a hora em que qualquer que vos matar, julgará prestar serviço a Deus. E eles vos farão isto, porque não conhecem nem ao Pai, nem a Mim. Mas estas coisas vos digo, para que, ao chegar a hora, vos lembreis que eu vo-las disse".

   Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!


Santo Estêvão deu testemunho de Nosso Senhor Jesus Cristo, levando uma
vida santa, defendendo a Verdade e combatendo o erro. Foi o primeiro na
Igreja a dar o maior testemunho: o martírio.
Não deixem de ler o Capítulo VII dos Atos dos Apóstolos. Prestem atenção
nesta terrível acusação que Santo Estêvão fez aos Judeus: "Homens de
cerviz dura e incircuncisos de coração e ouvidos, vós resistis sempre
ao Espírito Santo". 
 Nosso Senhor Jesus Cristo diz que o Espírito Santo, espírito de verdade, dará testemunho d'Ele. E diz também que nós devemos dar testemunho.

   O primeiro testemunho que Jesus espera de cada um de nós é o do bom exemplo. São Paulo diz que devemos dar testemunho nas palavras, na caridade, na fé e na castidade. "Sede o exemplo dos fiéis nas  palavras, na caridade, na fé, na castidade". 

   Examinemos a nossa consciência sobre estes pontos: 

   Nas palavras: O Evangelho diz, por exemplo, que é preciso fazer penitência, e talvez nas vossas conversas não se fala de outra coisa senão de gozo e de prazeres.

   O Evangelho lança a maldição ao mundo e aos seus escândalos: ao contrário, quem sabe? vós, sem tantas considerações dizeis que o mundo vos agrada, e sobejas vezes discorreis sobre escândalos com palavras menos pudicas, dando, às vezes, a impressão de os aprovar. Exemplo triste mas tão comum hoje, são os atentados contra as leis de Deus atinentes ao Santo Sacramento do Matrimônio. 

   O Evangelho diz que não se julgue a ninguém, e, no entanto, não se passa um dia sem murmurações e sem maledicências e até calúnias.

   Na caridade: O Evangelho, em todo pobre que sofre, em toda boa obra mostra-nos Jesu que sofre e que pede: porém nós, ao contrário, apegamo-nos tanto ao dinheiro, que a esmola nos mete medo.

   Na fé: Vós todos credes que na Hóstia Santa está Deus, credes que Ele é Pão e Força da vossa alma: e então como sucede que não o recebeis? que não o visitais? 

   Na castidade: Acreditais que o pecado é a lepra da alma, e o trazeis convosco tranquilamente por semanas e meses. Credes que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, e no entanto não o respeitais. 

   Caríssimos, Jesus diz que: "No meio desta geração adúltera e pecadora, quem se envergonhar d'Ele (e portanto não der testemunho da verdade de Suas palavras) Ele também se envergonhará dele no dia do Juízo". 

   Devemos combater sempre o respeito humano e pedir a graça de um amor ardente a Nosso Senhor Jesus Cristo, amor este capaz nos fortificar para darmos o maior testemunho que é o martírio. 


ASCENSÃO DE JESUS CRISTO


Por São Boaventura

"A ternura e bondade de Nosso Senhor tinham-Lhe conciliado tanto a afeição dos discípulos e principalmente dos Apóstolos, que não podiam resignar-se a separar-se dele. Em vão lhes dissera que ia preparar-lhes morada na casa de seu Pai, e que lhes convinha que Ele fosse; só a ideia da sua ausência, ainda mesmo temporária, enchia-os de tristeza.

Tendo pois chegado o quadragésimo dia depois da sua ressurreição, tomou consigo os santos patriarcas e os outros justos, que tirara do limbo, e veio ter com os Apóstolos que estavam no Cenáculo com sua Mãe e os outros, e aparecendo, quis, antes de subir ao Céu, comer com eles, como prova do seu amor.

Enquanto todos participavam com grande júbilo deste último banquete com seu Mestre, o Senhor Jesus diz-lhes: "É chegado o tempo de eu voltar para Aquele que me enviou; mas vós permanecei nesta cidade, até que sejais revestidos da virtude do alto. Depois ireis por todo o mundo pregar o meu Evangelho, batizar os crentes, e me sereis testemunhas até aos confins da terra".

Todos eles comem, conversam e gozam da presença do seu Senhor; mas não obstante isto, perturba-os a sua partida. E que dizer de sua Mãe, que comia ao lado dele? Não é crível que, ouvindo anunciar esta partida, ela recline cheia de ternura maternal, sua cabeça no peito de Jesus? Não tinha ela mais direito a isso que S. João? E diz-lhe banhada em lágrimas: "Meu Filho, se quereis partir, levai-me convosco". E o Senhor consolando-a, lhe responde: "Peço-vos, minha querida Mãe, que vos não  aflijais, porque vou para meu Pai; e vós convém que fiqueis ainda algum tempo na terra, para confortar os que crêem em mim; depois, virei ter convosco e vos levarei para a minha glória".

Então esta Mãe disse resignada: "Ó meu querido Filho, seja feita a vossa vontade! Eu estou disposta a ficar e a morrer, em favor daquelas almas que remistes com o preço do vosso sangue; mas lembrai-vos de mim". O Senhor consola-a, assim como à Madalena e aos discípulos, acrescentando: "Não se perturbe vosso coração, não vos hei de deixar órfãos. Vou, e hei de voltar a vós, e estarei sempre convosco". Finalmente diz-lhes a todos, que saiam e se dirijam para o monte das Oliveiras, porque dali se elevaria ao Céu; e desapareceu. Sua Mãe e os outros partiram logo para aquele monte, onde o Salvador lhes apareceu de novo.

Considerai atentamente o Mestre, os discípulos, e tudo o que se passa. Estando cumpridos todos os mistérios, o Senhor Jesus abraça sua Mãe, e diz-lhe adeus, e sua Mãe estreita-O ternamente nos braços. Os Apóstolos, Madalena e todos os outros prostraram-se, e desfeitos em pranto beijam com ternura seu divinos pés. Ele levanta com bondade os Apóstolos e abraça-os. Então começa a elevar-se, todos se prostram de novo. Nossa Senhor dizia: "Meu abençoado Filho, lembrai-vos de mim!". Ainda que chorosa, experimentava uma íntima alegria: seu filho subia ao Céu com tanta glória!... Por sua parte os Apóstolos e discípulos diziam: "Senhor, nós renunciamos a tudo para vos seguir; lembrai-vos de nós".

E Jesus, com as mãos levantadas, o rosto radiante, coroado e vestido como um rei, eleva-se triunfalmente ao Céu! Então, abençoando-os, diz-lhes: "Sede constantes, tende coragem, porque estarei sempre convosco". E subia, levando após si aquele exército de escolhidos, a quem abria o caminho do Céu, segundo a profecia de Miquéias: "Ascendet pandens iter ante eos" (Miquéias, II, 13). É assim que o Senhor cheio de glória, vestido de branco, com o rosto alegre e radiante, os precedia. E eles cantando, transportados de júbilo, seguiam-no repetindo: Cantemus Domino qui ascendit super occasum : Dominus nomen illi. [...].

Todos os coros dos Anjos, postos em ordem segundo a sua jerarquia, descem e vêm ao encontro de Jesus, todos se inclinam profundamente diante dele, seu supremo Senhor, e o acompanham, repetindo hinos e cânticos inefáveis. E os patriarcas, que seguiam a Jesus, cantavam e diziam: Alleluia, alleluia, alleluia! [...].

Vede como duma e doutra parte, todos honram o Senhor, se alegram da sua presença, e cantam sua glória, com o maior júbilo. Assim se realiza o oráculo do profeta: Ascendet Deus in jubilatione et Dominus in voce tubae.

Jesus vai-se elevando pouco a pouco, para consolação de sua Mãe e de seus discípulos, para que possam gozar deste espetáculo; depois, por fim, uma nuvem interpõe-se, e oculta-O aos olhos de todos. Mais um instante, e estará com todos os Anjos e patriarcas na pátria celestial.
Mas, como a Mãe do Filho de Deus e os Apóstolos com os discípulos, ainda que já o não viam, se conservassem sempre de joelhos, com os olhos fitos no Céu, foi necessário que dois Anjos viessem tirá-los deste êxtase, dizendo-lhes: "Homens da Galileia, porque estais olhando para o Céu? Este Jesus que acabou de subir ao Céu com tanta glória e majestade, há de tornar do mesmo modo à terra. Voltai para Jerusalém, como Ele vos mandou, esperai ali o cumprimento das suas promessas.

Notai esta atenção de Jesus para com os seus: mal se ocultou aos olhos deles, logo lhes mandou os seus Anjos, para que se não cansem em olhar daquela maneira, e para que sejam confortados com este testemunho dos habitantes do Céu, que vem juntar-se ao deles, acerca da ascensão do seu bom Mestre.

Tendo ouvido estas palavras, Nossa Senhora rogou humildemente aos Anjos que a recomendassem a seu Filho; e os Anjos, inclinando-se diante de Maria até ao chão, receberam de bom grado a sua mensagem. Os Apóstolos, a Madalena e todos os mais fizeram aos Anjos a mesma petição; e estes desaparecendo, voltaram todos para a cidade, para o monte de Sião, ali ficaram esperando, como o Senhor Jesus lhes ordenara".

Também eu, ó Jesus, meu divino rei, com a minha alma cheia de júbilo e esperança, feliz pela vossa glória, vos obedeço, e me retiro para onde vossa vontade me chama. Elevo-me  desde já acima das coisas terrenas; quero que todos os meus pensamentos e afetos estejam no Céu. Amém!


domingo, 21 de maio de 2017

EPÍSTOLA DO 5º DOMINGO DEPOIS DA PÁSCOA


Epístola de São Tiago, I, 22-27

"A religião pura e sem mácula aos olhos de Deus e nosso Pai é esta: visitar os órfãos e as viúvas, nas suas tribulações, e conservar-se puro da corrupção do mundo" (Tiago, I, 27).

Antes de fazermos as reflexões sobre este versículo 27, achamos por bem dar uma explicação geral desta leitura da Epístola no 5º domingo depois da Páscoa: Caríssimos irmãos, diz São Paulo, sede cumpridores da palavra de Deus e não apenas ouvintes. Do contrário, estariam se enganando a si mesmos. Pois, para se salvar, não basta ouvir a palavra do Santo Evangelho; é mister colocá-la em prática. Agora, quem medita atenciosa e profundamente o Evangelho, a nova lei que nos livrou do pecado e nele persevera não esquecendo e, sim, praticando o que ouviu, este será bem-aventurado neste e no outro mundo. Se alguém se tiver em conta de homem religioso, mas não refrear a língua, e entregando à maledicências, detrações e calúnias, este engana  a si mesmo, e a sua religião de nada vale.

E assim, depois de desmascarar o erro dos que pecam contra a caridade, o Apóstolo passa a enumerar os sinais da verdadeira religião: Consta de duas coisas: a caridade desinteressada e a pureza. Há, na verdade, uma falsa religiosidade estéril e inativa e que não leva em conta a caridade para com o próximo. Nosso Senhor quer, outrossim, que seja servido com um coração reto e puro, livre da corrupção deste mundo onde reina a tríplice concupiscência: orgulho, avareza e luxúria. Caridade e pureza devem estar sempre juntas na prática da verdadeira religião. Pois, reduzida apenas a atos de caridade, a Religião não passaria de sociedade filantrópica, o que os espíritas e maçons também fazem. Limitada, porém, à pureza, sem a prática da caridade, seria quando muito, simples seita filosófica ou moralista. Quão errados andam, pois, aqueles que se julgam religiosos tão somente por boas obras de caridade mas se conformando inteiramente ao espírito deste mundo colocado no maligno, e inundado de corrupção e impurezas. Devemos estar bem avisados contra estes modernistas que só falam em obras de misericórdia, mas procuram tranquilizar as consciências em pecados até mortais e grandes como o adultério, o sacrilégio e os escândalos. Devem estar lembrados de que existem 14 obras de misericórdia, sendo 7 delas, espirituais. E, entre estas está: CORRIGIR OS QUE ERRAM. Assim fez S. João Batista a Herodes: "Não te é lícito viver como estais vivendo" i, é, no adultério. 

Cada coração cristão seja um altar onde o fogo da caridade é perfumado pelo incenso da pureza. E, portanto, resumimos: Na palavra de Deus ouvida com atenção e interesse sobrenatural, na vigilância sobre a língua, na caridade operosa e na pureza conservada em meio da corrupção generalizada deste mundo, nesses preceitos, antes que mais nada, se forma o homem religioso que será bem-aventurado nesta e na outra vida. Amém!



Quinto domingo depois da Páscoa

   Leituras: Epístola de São Tiago Apóstolo 1, 22-27.
                   Continuação do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João 16, 23-30:


 "Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: Em verdade, em verdade, vos digo: Se pedirdes a meu Pai alguma coisa em meu Nome, Ele vo-la dará. Até agora nada pedistes em meu Nome.  Pedi e recebereis para que a vossa alegria seja completa. Estas coisas vos disse em parábolas. Vem a hora em que já não vos falarei em parábolas, mas abertamente vos falarei do Pai. Naquele dia pedireis em meu Nome; e não vos digo que hei de rogar por vós ao Pai, pois, o próprio Pai vos ama, porque vós me amastes e crestes que eu saí de Deus. Saí do Pai e vim ao mundo, deixo outra vez o mundo e vou ao Pai. Disseram-Lhe os discípulos: eis que agora nos falais claramente e não usais nenhuma parábola. Agora conhecemos que sabeis tudo, e que não tendes necessidade de que alguém Vos interrogue. Por isso cremos que saístes de Deus."

   Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

   Nossos Senhor Jesus Cristo, na véspera de sua Morte, anuncia a sua Ascensão ao Céu: "Saí do Pai e vim ao mundo, outra vez deixo o mundo e vou para o Pai". 
   Anuncia também a vinda do Divino Espírito Santo, o Pentecostes: "Mas vem o tempo em que não vos falarei já em parábolas, mas abertamente vos falarei do Pai." Nosso Senhor Jesus Cristo, por meio do Espírito Santo, iluminará os seus apóstolos fazendo-lhes entender mais profundamente os mistérios divinos. Na verdade, caríssimos irmãos, tudo o que nós podemos estudar e conhecer das coisas de Deus é letra morta enquanto o Espírito Santo não nos abrir a inteligência. Devemos ter uma devoção especial ao Divino Espírito Santo. É Deus e o doce Hóspede de nossa alma, é o nosso Santificador. 

   Jesus Cristo, Nosso Senhor, no evangelho deste domingo ensina-nos também o segredo da oração eficaz: "Se pedirdes a meu Pai alguma coisa em meu nome, Ele vo-la dará". Aí está o meio seguro para encontrarmos acesso junto do Pai: apresentar-se em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que se imolou para glória do Pai e para nossa salvação. Jesus está assentado à direita do Pai para interceder sempre por nós e Ele merece ser sempre atendido "pro sua reverentia", isto é, em razão da sua piedade (Hebreus V, 7). Diz São Paulo na epístola ao Hebreus VII, 25: "Por isso pode salvar perpetuamente os que por Ele mesmo se aproximam de Deus, vivendo sempre para interceder por nós". 

   Pedir "em nome de Jesus" significa, estarmos convencidos de que as nossas ações e boas obras não valem nada se não se apoiam nos méritos infinitos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Por mais que façamos e rezemos, somos sempre servos inúteis, que não temos em nós nenhuma capacidade para o bem, mas toda a nossa suficiência vem de Jesus Crucificado. Portanto, a primeira condição para que a nossa oração seja feita em nome de Jesus e assim seja eficaz, é a virtude da humildade.  Isto significa uma convicção profunda e realista do nosso nada.
   A segunda condição para que a nossa oração seja feita em nome de Jesus e portanto eficaz, é a confiança. Uma confiança ilimitada nos méritos infinitos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Na verdade Seus merecimentos ultrapassam todas as nossas indigências, misérias, necessidades. E assim nunca seremos demasiado ousados em pedir a plenitude da graça divina sobre as nossas almas, em aspirar à santidade; santidade esta escondida, mas autêntica. Nossa miséria, por maior que seja, será sempre finita, mas os merecimentos e a misericórdia de Jesus serão sempre infinitos. Não existem infidelidades e culpas, tendências más e misérias sinceramente detestadas que o Sangue de Jesus não possa sarar, fortificar e transformar. 
   Mas, caríssimos e amados fiéis, há ainda uma outra condição para que a nossa oração seja eficaz: que a nossa vida corresponda à nossa oração, isto é, que a nossa fé se traduza em boas obras. É vã a oração, é vã a nossa confiança em Deus, se não as acompanhamos com os nossos esforços generosos para cumprirmos todos os nossos deveres, para vivermos à altura da nossa vocação. 

  Terminemos com palavras de Santo Agostinho: "Ó Criador da luz, perdoai as minhas culpas pelos imensos trabalhos do Vosso Amado Filho! Fazei, Senhor, que a Sua piedade vença a minha impiedade, que a Sua modéstia satisfaça pela minha perversidade, que a Sua mansidão dome a minha irascibilidade. A Sua humildade repare a minha soberba; a Sua paciência, a minha impaciência; a sua benignidade, a minha dureza; a Sua obediência, a minha desobediência; a Sua tranquilidade transforme a minha inquietação; a Sua doçura, a minha amargura; a Sua caridade apague a minha crueldade". 

   Ó Jesus! ensinai-me a rezar, aumentai a minha fé! Amém!

terça-feira, 16 de maio de 2017

O DIVINO MESTRE

"Jesus Cristo é sempre o mesmo ontem e hoje; e ele o será também por todos os séculos. Não vos deixeis levar por doutrinas várias e estranhas" (Hebreus XIII, 8 e 9).

Passará o céu e a terra, mas a verdade do Senhor permanecerá eternamente (Mt XXIV, 35). As palavras dos Pitagóricos, disse-o o mestre, não era entre eles senão a expressão de uma idolatria insensata, pois não há homem que não se engane; mas aplicada a Nosso Senhor Jesus Cristo, deve ser um primeiro princípio, um axioma sagrado para todo católico.

Jesus Cristo é eterno. N'Ele creram os justos de todos os séculos passados; n'Ele creem os seus apóstolos; cremos também nós n'Ele e todos os fiéis que vivem nos dias de hoje e n'Ele crerão todos os séculos futuros até ao fim do mundo. Sendo Deus é eterno, é imutável. Ele é o único Messias e depois d'Ele não devemos esperar nenhum outro.

O Apóstolo, com as palavras acima enunciadas, quis estabelecer a eternidade do Verbo Divino. E o próprio São Paulo tira a conclusão lógica, ou seja, que nossa fé deve ser também imutável, e os verdadeiros cristãos não devem ir atrás daqueles que lhes prometem um outro Cristo, um outro Messias. Sendo Jesus o Filho de Deus Vivo, só Ele tem palavras de vida eterna. Sua doutrina é perfeita; sua Igreja é uma só, como uma só é a verdade.

São Paulo combate aqui as seitas, nascidas de homens pecadores, mortais, mutáveis. As doutrinas das seitas são várias e consequentemente estranhas à única verdadeira que é a de Jesus Cristo. "Deus é a única verdade, escreveu Luiz Veuillot, a Igreja Católica é a única Igreja de Deus".

Jesus Cristo é a Verdade absoluta como Verbo de Deus e é ainda para nós a Verdade revelada, a luz da fé. Ele é assim o nosso Mestre por excelência: "Vós só tendes um mestre que é Cristo" (Mt XXIII, 10). Que os outros escolham, se quiserem, "mestres que deleitam os ouvidos e se desviam da verdade para se entregarem a fábulas" (II Tim., IV, 3 e 4).  Quanto a nós, pela graça de Deus, iremos Àquele que tem palavras de vida eterna, aquele que veio a este mundo para dar testemunho da verdade. Iremos a Ele com toda a nossa alma, com a dupla luz da razão e da fé. Diz Lacordaire: "Movemo-nos em duas esferas: a da natureza e a da graça; mas tanto uma como outra têm o Verbo, Filho de Deus, por autor e por guia. Eis porque a Igreja, infalivelmente assistida pelo Espírito que a instituiu, nunca abdicou na defesa da razão; teve-a sempre como uma parte da sua herança..."

Jesus Cristo, o Filho de Deus, desceu do céu à terra para constituir uma sociedade que pudesse "aparecer diante d'Ele gloriosa, sem mancha nem ruga, santa e imaculada" (Ef. V, 27).  E o divino Mestre quer nos levar até a Jerusalém celeste e diz que Ele mesmo é o Caminho, a Verdade e a Vida. Jesus Cristo é o Caminho que devemos seguir para  chegarmos ao Pai; a Verdade em que devemos acreditar, a Vida que almejamos conseguir. Aquele que estiver unido a Ele tem tudo: tem o Pai e vê o Pai, não com os olhos físicos, mas com os olhos do espírito. A união com o Pai é o próprio ser de Jesus; dela depende a sua vida humana; a sua doutrina é luz daquele foco; os seus milagres, manifestações do poder divino.

Segundo o pensamento do Beato Mons. Ollier, tenhamos habitualmente Jesus diante dos olhos, no coração e nas mãos.Tenhamos Jesus diante dos olhos: contemplando-O como o modelo mais completo de todas as virtudes que devemos praticar. Tenhamos Jesus no coração: quer dizer, supliquemos ao Espírito Santo, que animava a alma humana do Salvador e que é ainda hoje a alma do seu corpo místico, que venha até nós para nos tornar semelhantes a Jesus Cristo. Tenhamos Jesus nas mãos: isto é, roguemos-Lhe que faça com que a sua vontade se cumpra em nós, que, "como bons membros, devemos obedecer à cabeça, e cujos impulsos só devem vir de Jesus Cristo, o qual, enchendo a nossa alma do seu Espírito, da sua virtude e da sua força, deve operar em nós e por nós tudo quanto deseja".


Com São Paulo, digamos de todo o coração: "A minha vida é Jesus". Amém!

domingo, 14 de maio de 2017

DIA DAS MÃES



Meus parabéns a todas as mães cristãs!


Teresa menina e sua Mãe
Segundo um desenho de "Celina".
 "Há um nome na pobre linguagem humana que traduz todos os arroubos da alma e toda a sensibilidade do nosso coração. 
  Esse nome põe bálsamo nas feridas mais pungentes da nossa pobre vida. Ele se transforma em constelação de luzes para as noites mais apocalípticas e mais sombrias. Ele acaricia as frontes mais cansadas e decepcionadas do mundo. 
  Esse nome significa o tabernáculo da amizade mais profunda e sincera. O sacrário do amor que não se cansa, da capacidade de sacrifício que não se limita, da renúncia que não se mede, do perdão que não se pode calcular.
   Esse nome que está na alegria de todos os poemas, na sensibilidade de todas as músicas, no sonho de todas as artes, na ternura de todos os corações, é o nome de MÃE. (D. Antônio de Almeida Morais Júnior).

   Na verdade, uma boa mãe não é mais uma mera mulher, é sempre uma santa. "Um coração de mãe", dizia Santa Terezinha, "vale mais que a ciência dos mais peritos doutores". 

   "Como o sol", diz Alves Mendes, "ela é luz, calor, fecundidade. Como o sol alumia, aquece, alegra, move, alenta, expande, acaricia, fascina, atrai: O que é o sol perante os astros é-o a mãe perante os povos - o ponto cêntrico da vida, a fonte da família, a chave da sociedade. Cooperadora da Providência e complemento do homem, a mãe gera, nutre, educa, dá forma, brilho e esmalte à existência. É autora maravilhosa e destra escultora dos seres. Não houve ainda, e não haverá jamais, criatura mais adorável do ela é". 

   Dom Ramón Jara, Bispo de la Serena no Chile, deixou-nos uma página belíssima: RETRATO DE MÃE.

   "Uma simples mulher existe que pela IMENSIDÃO DE SEU AMOR, tem um pouco de DEUS; e pela constância de sua DEDICAÇÃO, tem muito de ANJO; que, sendo NOVA, pensa como uma anciã e, sendo VELHA, age com as forças todas da juventude; quando analfabeta, melhor que qualquer sábio desvenda os SEGREDOS DA VIDA; e, quando SÁBIA, assume a simplicidade das crianças; POBRE, sabe enriquecer-se com a felicidade dos que ama, e, RICA, empobrecer-se para que seu coração não sangre ferido pelos ingratos; FORTE, entretanto estremece ao choro de uma criancinha, e, FRACA, entretanto se alteia com a bravura dos leões; VIVA, não lhe sabemos dar valor porque à sua sombra todas as dores se apagam, e, MORTA, tudo o que somos e tudo o que temos daríamos para VÊ-LA DE NOVO, e dela receber um aperto de seus braços, uma palavra de seus lábios. Não exijam de mim que diga o NOME DESSA MULHER, se não quiserem que ensope de lágrimas este álbum: porque eu a vi passar no meu caminho. Quando crescerem seus filhos, leiam para eles ESTA PÁGINA: eles lhe cobrirão de BEIJOS A FRONTE, e, dirão que um pobre viandante, em troca da suntuosa hospedagem recebida, aqui deixou para todos o RETRATO DE SUA PRÓPRIA 'MÃE'".

   "Se o homem pudesse na idade da razão lembrar o ardor de um só beijo materno, não poderia ter coragem de cometer a menor injustiça para quem o tem beijado tão ternamente... Ensinar aos próprios filhos a praticar o bem é deixar-lhes a mais preciosa herança. Desta maneira podemos asseverar ser-lhes úteis até depois da morte" ( Mantegazza).

   Para terminar não posso deixar de contar um fato do qual fui humilde ministro de Nosso Senhor Jesus Cristo. Há 35 anos, era padre novo e Capelão dos Hospitais de Campos, RJ. Encontrei, um dia, hospitalizado um senhor de certa idade, que estava bem mal, mas que ainda falava. Conversei com ele procurando incutir-lhe coragem e que tivesse confiança em Nosso Senhor Jesus Cristo que morreu na cruz por nós. Depois perguntei se não queria uma bênção e eu estava disposto a ajudá-lo a confessar-se para depois dar-lhe a unção dos enfermos e o viático. Respondeu-me que não queria confessar-se porque achava que para ele não havia perdão já que passara toda a vida só praticando o mal. Procurei incutir-lhe confiança na misericórdia divina. A nossa maldade, nossos pecados nunca chegam a ser infinitos; mas a misericórdia de Nosso Senhor Jesus Cristo é infinita. Por mais graves e numerosos que sejam nossos pecados o sangue de Jesus Cristo tem o poder de lavá-los inteiramente. Deus é Nosso Bom Pai que espera o pecador com paciência, vai a sua procura com toda solicitude e o recebe com toda a alegria quando ele se arrepende. Mas o enfermo continuou naquela tentação de desespero da salvação. Para não cansá-lo nem aborrecê-lo, mudei um pouco o rumo da conversa. Perguntei-lhe se seus pais eram católicos. Ele respondeu: sim, sobretudo minha mãe. Rezou muito por mim, deu-me muitos bons conselhos. Nunca os segui, mas também não os esqueci, embora ela já tenha morrido há muitos anos. Por isso, padre, continuou ele, é que eu digo: para mim não há salvação. Apesar dos conselhos de minha mãe, só pratiquei o mal em toda minha vida. E eu lhe disse: Meu filho, tendo sido sua mãe como o sr. explicou, tendo ela cumprido o seu dever de estado como uma mãe verdadeiramente cristã, o sr. pode ter certeza que ela está no céu. E ainda lhe digo mais: o sr. pode ter certeza que se o sr. está tendo a graça de ter ao seu lado um padre na hora da morte, é porque sua santa mãe está lá no céu pedindo a Nosso Senhor Jesus Cristo esta graça tão grande. E o sr. pode ter certeza que ela o aguarda no paraíso. E o doente, então, começou a chorar! Deixei. Depois, dei-lhe o Crucifixo para beijar. Beijou-o e disse-me: Senhor padre, sinto neste momento que agora quero receber o perdão dos meus pecados, mas nunca me confessei. Eu disse-lhe: Meu filho, esta é minha missão. Todo o meu tempo é dedicado para salvar almas. Posso ficar aqui horas e horas se for necessário, para prepará-lo. De fato fiquei por mais de duas horas talvez. Ele não sabia nada de religião. Depois que  percebi que já sabia o mínimo indispensável para receber os sacramentos, atendi sua confissão que foi a primeira e a última. Dei-lhe a extrema-unção, o Santo Viático e a Indulgência plenária com a Bênção papal. Depois de tudo, chorando ele disse-me: sr. padre, antes de morrer quero fazer-lhe um pedido: em todos os lugares em que o sr. trabalhar conte este fato: um grande pecador se converteu na hora da morte, por causa das orações e conselhos de sua mãe santa. 

   Obedecendo o seu pedido, determinei que todo ano na festa das Mães, contaria este fato, como acabei de fazê-lo. Tenho certeza que esta alma ou já está junto de sua mãezinha no céu, ou está segura de um dia ter esta felicidade eternamente. 

   "DEEM-ME MÃES VERDADEIRAMENTE CRISTÃS, E EU SALVAREI ESTE MUNDO DECADENTE" (São Pio X). 

sábado, 13 de maio de 2017

APARIÇÕES DE NOSSA SENHORA EM FÁTIMA


                                                          + Dom Fernando Arêas Rifan


FÁTIMA: 100 ANOS!
                                                                                                                   Dom Fernando Arêas Rifan*
           No próximo sábado, dia 13 de maio, celebraremos o 100o aniversário da primeira de uma série de aparições de Nossa Senhora a três simples crianças, pastores de ovelhas, em Fátima, pequena cidade de Portugal, de onde a devoção se espalhou e chegou ao Brasil. São sempre atuais e dignas de recordação as suas palavras e seu ensinamento.
         O segredo da importância e da difusão de sua mensagem está exatamente na sua abrangência de praticamente todos os problemas da atualidade. Aquelas três simples crianças foram os portadores do “recado” da Mãe de Deus para o Papa, os governantes, os cristãos e não cristãos do mundo inteiro.
          Ali, Nossa Senhora nos alerta contra o perigo do materialismo comunista e seu esquecimento dos bens espirituais e eternos, erro que, conforme sua predição, vai cada vez mais se espalhando na sociedade moderna, vivendo os homens como se Deus não existisse: o ateísmo prático, o secularismo. “A Rússia vai espalhar os seus erros pelo mundo”, advertiu Nossa Senhora. A Rússia tinha acabado de adotar o comunismo, aplicação prática da doutrina marxista, ateia e materialista. Se o comunismo, como sistema econômico, fracassou, suas ideias continuam vivas e penetrando na sociedade atual. Aliás, os outros sistemas econômicos, se também adotam o materialismo e colocam o lucro acima da moral e da pessoa humana, assumem os erros do comunismo e acabam se encontrando na exclusão de Deus. Sobre isso, no discurso inaugural do CELAM, em 13 de maio de 2007, em Aparecida, o Papa Bento XVI alertou: “Aqui está precisamente o grande erro das tendências dominantes do último século... Quem exclui Deus de seu horizonte, falsifica o conceito da realidade e só pode terminar em caminhos equivocados e com receitas destrutivas”. Fátima é, sobretudo, a lembrança de Deus e das coisas sobrenaturais aos homens de hoje.
       Aos pastorinhos e a nós, Nossa Senhora pediu a oração, sobretudo a reza do Terço do Rosário todos os dias, e a penitência, a mortificação nas coisas agradáveis e lícitas, pela conversão dos pecadores e pela nossa santificação e perseverança.
        Explicou que o pecado, além de ofender muito a Deus, causa muitos males aos homens, sendo a guerra uma das suas consequências. Lembrança muito válida, sobretudo hoje, quando os homens perderam o senso do pecado e o antidecálogo rege vida moderna, como nos lembrou São João XXIII. Falou sobre o Inferno - cuja visão aterrorizou sadiamente os pastorinhos e os encheu de zelo pela conversão dos pecadores –, sobre o Purgatório, sobre o Céu, sobre a crise que sofreria a Igreja, com perseguições e martírios.

         Enfim, Fátima é o resumo, a recapitulação e a recordação do Evangelho para os tempos modernos. o Rosário, tão recomendado por Nossa Senhora, é a "Bíblia dos pobres"(São João XXVIII). Assim, sua mensagem é sempre atual. É a mãe que vem lembrar aos filhos o caminho do Céu.


*Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney

terça-feira, 9 de maio de 2017

LIÇÕES DE FÁTIMA (I)


"Fazei tudo o que Ele  vos disser" (S. João, II, 5).
"Importa orar sempre e não cessar de o fazer" (S. Lucas, XVIII, 1).
"Se não fizerdes penitência, todos perecereis do mesmo modo" (S. Lucas, XIII, 5).
"Em todas as tuas obras lembra-te dos teus novíssimos, e nunca jamais pecarás" (Eclesiástico, VII, 40).
"Donde vêm as guerras e as contendas entre vós? Não vêm elas das vossas concupiscências que combatem em vossos membros? (S. Tiago, IV, 1).

Excertos da Carta Pastoral  escrita pelo então Bispo de Campos, D. Antônio de Castro Mayer, de santa memória,  por ocasião do 250º aniversário do encontro da milagrosa imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida e do 50º aniversário das aparições de Nossa Senhora do Rosário de Fátima:
CARTA PASTORAL SOBRE A PRESERVAÇÃO DA FÉ E DOS BONS COSTUMES (Ano de 1967).

Lições de Fátima
Os fatos que se desenrolaram em Fátima contêm um amoroso apelo de Deus Nosso Senhor:
1. a que O desagravemos e ao Coração Imaculado de sua Mãe Santíssima, das ofensas de que continuamente são objeto;
2. a que nos compadeçamos dos pobres pecadores;
3. cuja conversão, assim como o desagravo, se obtêm pela oração e as mortificações, as voluntárias e as enviadas pelo mesmo Deus.
Ensinam-nos, outrossim:
4. que a meditação sobre o inferno tem eficácia especial na conversão dos pecadores;
5. que a guerra foi um meio de que Deus se utilizou para punir os pecados do mundo;
6. que entre as orações mais eficazes, está a reza do santo rosário;
7. que a salvação do mundo se condiciona à consagração e devoção ao Imaculado Coração de Maria.
Inculcam, enfim:
8. a devoção aos Santos Anjos;
9. o poder do milagre para autenticar a mensagem divina.

Estes pontos todos  concordam perfeitamente com o ensino tradicional da Igreja. É na visão celeste da Corte angélica que cresce no coração dos fiéis a confiança da Bondade Divina, que tão amorosamente providenciou os guias de nossa peregrinação terrena.

Sobre a Virgem Santíssima, de há muito a doutrina constante da Sagrada Hierarquia e a piedade ativa dos fiéis a associaram à obra redentora de Nosso Senhor Jesus Cristo, seu Divino Filho. Como por Maria recebeu o mundo ao Salvador, assim por Maria receberam os homens os frutos da Redenção. A Virgem Santíssima é chamada a Onipotência suplicante, por quanto está sempre a interceder por nós, e suas preces são sempre aceitas do Pai Eterno. Mais; por disposição da Providência, nenhuma graça desce do Céu à terra si se não interpuser a intercessão de Nossa Senhora. Como corolário dessa doutrina tradicional da Igreja, Nosso Senhor determina, em Fátima, que a salvação do mundo Ele a concederá por meio do Imaculado Coração de sua Mãe Santíssima. Nessa mesma ordem da Providência estão as graças especiais concedidas à reza do rosário mariano, como, aliás, já consta da história eclesiástica, desde que foi essa devoção introduzida entre os fiéis.

As guerras e calamidades, desde o Antigo Testamento, são apresentadas como consequência do pecado, e é doutrina tradicional que, como todos os males, também elas entraram no mundo pelo pecado original, fonte dos demais outros.

Importa, no entanto, nos detenhamos mais sobre o espírito de reparação, a penitência e a consideração sobre o inferno.

Reparação e penitência

Ao espírito de reparação, a compaixão nos sofrimentos do Divino Salvador e, consequentemente, nos de sua Mãe Santíssima, nos convidam as expressões cheias de ternura do Discípulo amado que auscultou o Coração de Jesus, e as queixas amorosas do próprio Divino Salvador. A palavra de São João, "Sic Deus dilexit mundum ut Filium suum Unigenitum daret - Deus de tal maneira amou o mundo que entregou seu Filho Unigênito" ( Jo. 3, 16), soa como um brado a despertar em nossos corações as fibras da gratidão; e a de Jesus Cristo, no Horto das Oliveiras, quando se viu oprimido pelos nossos pecados, e triturado pelas nossas ofensas: "Non potuistis una hora vigilare mecum?  -  Não pudestes vigiar uma hora apenas comigo?" (Mat. 26, 40), é uma amorosa censura por nossa falta de compaixão nos seus sofrimentos.

A penitência, a mortificação dos sentidos e da própria vontade são parte essencial da doutrina de Jesus Cristo, constantemente pregada pelos Apóstolos e pela Santa Igreja. É ela condição indispensável para que a pessoa possa entrar no Reino de Deus: "Fazei penitência, porque se aproxima o Reino de Deus" (Mat. 4, 7), prega-nos Jesus Cristo. "Fazei penitência e seja cada um de vós batizado no nome de Jesus Cristo, para remissão de vossos pecados" (At. 2, 38), confirma o Príncipe dos Apóstolos. Por seu turno, a mortificação, à imitação de Jesus Cristo, obediente até à morte, e aceitando todos os sofrimentos que torturaram seu Corpo sacrossanto, deve acompanhar o fiel que deseja manter sua união com o Divino Salvador: "Trazemos sempre em nosso corpo os traços da morte de Jesus para que também a vida de Jesus se manifeste em nós" ( 2 Cor. 4, 10), diz São Paulo de si mesmo, e recomenda a mesma norma aos seus discípulos: "Se viverdes segundo a carne, haveis de morrer; mas, se, pelo Espírito [isto é, a graça de Deus], mortificardes as obras da carne, vivereis" (Rom. 8, 13). Depois, a Igreja inculcou sempre aos seus filhos o espírito de penitência. Foi este espírito que povoou os desertos com os santos anacoretas, como foi a renúncia até à morte que deu energia aos Mártires para sofrerem os mais atrozes tormentos por Jesus Cristo. E todos os grandes Santos, os Patriarcas das Ordens e Congregações religiosas puseram sempre a penitência como fundamento para chegarem, eles mesmos e seus discípulos, à vida de união com Jesus Cristo.

A natureza decaída exige a penitência

A razão por que a penitência é assim tão necessária é a concupiscência que habita em nosso corpo de pecado. É a lei da carne que se opõe à virtude: "Sinto nos meus membros, diz São Paulo, outra lei que luta contra  a lei de meu espírito e que me prende à lei do pecado, que está no meu corpo" (Rom. 7, 23). Este fato, esta luta, esta contradição íntima de nossa natureza, que nos leva a fazer o mal que reprovamos, é que nos obriga a uma vigilância, uma mortificação contínua, a fim de que, auxiliados pela graça de Deus, em nós não domine o pecado, mas vivamos segundo o Espírito de Jesus Cristo. A exortação, pois, do Salvador no Jardim das Oliveiras, "vigilate et orate ne intretis in tentationem" (Mat. 26, 41), vale para todos os tempos. Oração e penitência recomenda Maria Santíssima em Fátima, para a conversão dos pecadores.

De fato, a oração e a penitência, assumida com espírito de reparação, à imitação de Jesus Cristo, não apenas valem para o fiel que as pratica, como o torna colaborador na obra redentora do Filho de Deus, conforme a palavra do Apóstolo: "Alegro-me nos sofrimentos suportados por vós. O que falta às tribulações de Cristo, completo na minha carne por seu corpo que é a Igreja" (Col. 1, 24).

Em suma, deve o cristão, para santificar-se e colaborar na conversão dos pecadores, levar uma vida nova, santa em Cristo Jesus, e isso dele pede que, pela mortificação contínua dos seus membros, renuncie tudo o que há de mundano: a devassidão, a impureza, as paixões, os maus desejos, a concupiscência, a ira, a cólera, maledicência, a maldade, as palavras torpes, etc. (Cf. Col., 3, 5-8).

Não há dúvida que a luta que se pede ao fiel é um combate duro, porquanto o inimigo é interno, aliciante e, bem manejado pelo Príncipe deste mundo, é sem a graça de Deus, invencível.

Benefícios da meditação sobre o inferno

Uma dessas graças que devem ser arroladas entre as forças que vencem nossas tendências para o mal, é a consideração dos novíssimos, conforme a expressão da Escritura: "Memorare novissima tua, et in aeternum non peccabis" (Ec. 7, 40). E entre os novíssimos o que causa maior impressão e, por isso, goza de especial eficácia para arrancar o homem animal, que somos, ao vício, e orientá-lo à prática da virtude, é o inferno com suas penas eternas, a perda da bem-aventurança e o fogo interminável.

Frequentes vezes propôs o Salvador o fogo inextinguível do inferno como meio para levar seus discípulos à prática dos Mandamentos: "Se a tua mão for para ti ocasião de queda, corta-a; melhor te é entrares na vida eterna aleijado, do que, tendo duas mãos, ires para a Geena, para o fogo inextinguível [...]. Se o teu pé for para ti ocasião de queda, corta-o fora; melhor te é entrares na vida eterna aleijado, do que, tendo dois pés, seres lançado à Geena do fogo inextinguível [...]. Se o teu olho for para ti ocasião de queda, arranca-o; melhor te é entrares com um olho de menos na Reino de Deus do que, tendo dois olhos, seres lançado à Geena do fogo, onde [...] o fogo não se apaga" (Marc. 9, 42 ss.). Em São Mateus, o Senhor nos adverte que não devemos temer os que matam o corpo, mas não podem matar a alma, pois devemos "temer antes Aquele que pode precipitar a alma e o corpo na geena" (Mat. 10, 28). O mesmo intencionava o Salvador, quando declarava a sentença do Juízo Final: "Ide, malditos, para o fogo eterno que foi preparado para o demônio e seus anjos" (Mat. 25, 41).

Idêntica doutrina, igual exortação encontramos nos escritos dos Apóstolos. São Paulo frequentemente adverte que os pecadores não possuirão o Reino de Deus, e São João, no Apocalipse, assim fala do castigo eterno que aguarda os sequazes do demônio: "Se alguém adorar a fera e a sua imagem, e aceitar o seu sinal na fronte ou na mão, há de beber também o vinho da cólera divina, o vinho puro deitado no cálice da sua ira. Será atormentado pelo fogo e pelo enxofre diante dos seus Santos anjos e do Cordeiro. A fumaça do seu tormento subirá pelos séculos dos séculos [isto é, eternamente]. Não terão descanso algum, dia e noite, esses que adoram a fera e a sua imagem, e todo aquele que acaso tenha recebido o sinal do seu nome" (14, 9-11). Mais abaixo volta a falar da pena que espera os pecadores: "Cada um foi julgado segundo suas obras [...]. A segunda morte é esta: o flagelo do fogo. Se alguém não foi encontrado no livro da vida, foi lançado ao fogo" (20, 13 ss.).

Com semelhante doutrina, não admira que os autores ascéticos proponham a meditação do inferno como salutar para obter a conversão e salvação dos pecadores e, mesmo, o afervoramento dos bons, porquanto o inferno também nos mostra o amor que Jesus nos teve liberando-nos de cativeiro tão horrendo. Vem a propósito salientar que Santo Inácio de Loyola no Livro dos Exercícios Espirituais  -  livro elogiado e recomendado por inúmeros Papas  -  entre as meditações fundamentais da primeira semana, a semana que deve determinar a conversão do exercitante, coloca a reflexão sobre o inferno precisamente à maneira como Nossa Senhora o propôs aos videntes de Fátima: falando intensamente aos sentidos.


domingo, 7 de maio de 2017

HOMILIA DOMINICAL - 3º Domingo depois da Páscoa

   Leituras: Primeira Epístola de São Pedro Apóstolo, 2, 11-19.
                   
                   Continuação do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João, 16, 16-22: 

       
 Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: Ainda um pouco, e já não me vereis; mais um pouco de tempo e me tornareis a ver, porque vou ao Pai'. Disserem, então, alguns dos seus discípulos entre si: 'Que é isto, que Ele nos diz?: Ainda um pouco de tempo e não me vereis; mais um pouco de tempo e me tornareis a ver, porque vou para o Pai?' Diziam, pois: 'Que quer dizer com isso: 'Um pouco de tempo'? Não sabemos o que Ele quer dizer'. Conheceu, porém, Jesus que eles O queriam interrogar, e disse-lhes: 'Sobre isso discutis entre vós, porque eu disse: Ainda um pouco de tempo e não me vereis; mais um pouco de tempo e me tornareis a ver. Em verdade, em verdade eu vos digo: Haveis de chorar e vos lamentar, enquanto o mundo há de alegrar; vós estareis tristes, mas a vossa tristeza se converterá em gozo. Uma mulher, quando dá à luz, tem tristeza, porque veio a sua hora, mas logo que a criança nasce, já não se lembra da aflição, pela alegria por haver nascido ao mundo um homem. Assim vós outros, agora estais tristes, mas outra vez vos verei; então alegrar-se-á o vosso coração; e ninguém vos há de tirar a vossa alegria'. 

   Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

 
 Com o Santo Evangelho de hoje a Santa Madre Igreja já vai nos preparando para a festa da Ascensão de Jesus ao Céu. Este Evangelho é tirado do sermão que Jesus fez aos Apóstolos na tarde de última Ceia, com o fim de os preparar para a Sua volta para o Céu, tendo que passar antes pela Sua Paixão, Morte e Sepultura, Ressurreição e depois então de ainda  40 dias aqui na terra, realizar Sua Ascensão aos Céus.

 
 Assim, no sentido literal, "aquele pouco de tempo" significava que Jesus no outro dia iria morrer, e seria sepultado, e assim seus discípulos ficariam três dias incompletos sem poder vê-Lo. Depois deste pouco de tempo novamente o veriam ressuscitado e se alegrariam. Ainda ficaria com eles mais um pouco de tempo, isto é, 40 dias e não o veriam mais porque subiria para o Céu, voltando para o Seu Pai. 
   Ainda no sentido literal podemos dizer que "aquele pouco de tempo" também significava o tempo do resto da vida deles, e morrendo iriam também para o Céu, onde voltariam a ver a Jesus, e agora, não mais o deixariam de ver, e ninguém poderia tirar-lhes este gozo. É a felicidade eterna. 
   Estiveram tristes e acabrunhados na Paixão, Morte e Sepultura do Divino Mestre, mas se alegraram grandemente em vê-lo ressuscitado. Ficaram novamente tristes em ver Jesus se separando deles e subindo para o Céu. O mundo os perseguiu. E eles tudo sofreram por amor a Jesus. E estes mesmos sofrimentos, estas mesmas tristezas se transformaram em merecimentos que lhes proporcionaram um maior gozo no céu na beatífica Visão de Deus. Agora ninguém lhes poderá tirar esta alegria perfeita, pois é eterna. 


 Num sentido moral,  o Santo Evangelho se aplica também a nós. Na verdade, a nossa vida, por mais longa que seja é "um pouquinho de tempo" em comparação da eternidade para a qual caminhamos. Se agora fizermos penitência, renunciarmos a nós mesmos, morrermos para à nossas paixões desregradas, todas as virtudes, enfim tudo isto de que o mundo zomba, se converterá em alegria, em maiores merecimentos que nos proporcionarão também uma glória maior no Céu, por toda a eternidade. Ninguém no-la poderá tirar. Por um pouquinho de sofrimento, um peso imenso de glória por toda a eternidade. 

   Ó Jesus, ajudai-nos a trabalhar e a sofrer de bom coração agora por amor a Vós, e, depois das fatigas e lágrimas deste exílio, depois deste pouquinho de tempo que vai do berço ao túmulo, concedei-nos o repouso e a alegria dos santos no Céu. Assim seja! 

sábado, 6 de maio de 2017

SANTA MISSA DE SEMPRE: Explicação feita por Santo Tomás de Aquino


   Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, questão LXXXIII, artigo IV e V.
ART. IV. - Se foram convenientemente ordenadas as palavras proferidas neste sacramento.
ART. V.  - Se as cerimônias usadas na celebração deste mistério são convenientes.
Nota: Alterei a ordem da matéria, colocando as objeções para o fim. 
  ARTIGO IV - Explicação das palavras da Santa Missa
   Um documento denominado: "De Consecratione, dist. 1º" (ndt - é um documento extraído dum livro antiquíssimo: "Constituições Apostólicas") diz: "Tiago, irmão(primo) do Senhor e (S.) Basílio Cesariense Bispo, regularam a celebração da missa". Dada a autoridade destes homens (São Tiago, Apóstolo e São Basílio, Bispo) devemos dizer que nada se diz na Missa que não seja apropriado.
    EXPLICAÇÃO para solução de qualquer dúvida: Este sacramento compreende todo o mistério da nossa salvação. Por isso, é celebrado com mais solenidade que todos os outros. E porque lemos nas Sagradas Escrituras, Eclesiástico IV, 17: "Vê onde põe o teu pé quando entras na casa de Deus"; e Eclesiástico, XVIII, 23: "Prepara a tua alma antes da oração". Por isso, antes da celebração deste mistério, vem em primeiro lugar a preparação, para se bem fazer o que se segue. - Desta preparação, a primeira parte é o louvor a Deus, que se faz no Intróito, segundo aquilo das Sagradas Escrituras: "Sacrifício de louvor me honrará; e ali o caminho por onde lhe mostrarei a salvação de Deus" (Salmo XLIX, 23). E este louvor de Deus é tirado, no mais das vezes, dos salmos, ou pelo menos é cantado com um Salmo, porque, como diz (S.) Dionísio, os salmos como louvores, abrangem tudo o que está contido nas Sagradas Escrituras. - A segunda parte (Santo Tomás, mais na frente, vai se referir ao Confiteor). contém a confissão de nossa miséria presente, quando o sacerdote implora misericórdia, dizendo Kyrie eleison, três vezes pela pessoa do Pai; três pela pessoa do Filho, quando diz Christe eleison; e três pela pessoa do Espírito Santo, quando acrescenta Kyrie eleison. Três súplicas contra a nossa tríplice miséria - da ignorância, da culpa e da pena; ou para significar também que as três pessoas divinas estão reciprocamente uma na outra. - A terceira parte comemora a Glória Celeste, a que tendemos depois da miséria presente, quando se diz: Gloria in excelsis Deo; o que se canta nas festas em que se comemora a glória celeste, e se omite nos ofícios fúnebres e de penitência que só comemoram a miséria da vida presente. - A quarta parte contém a oração que o sacerdote faz pelo povo, para que ele (=o povo) seja digno de tão grandes mistérios. 

   Em segundo lugar vem a instrução do povo fiel, porque este sacramento é  o mistério de fé. E essa instrução dispositivamente se faz pela doutrina dos Profetas e dos Apóstolos, lida na Igreja pelos leitores e subdiáconos. É a Epístola. E depois desta lição o coro canta o Gradual, que significa o progresso na vida espiritual; o Alleluia, símbolo da exultação espiritual; ou o Tractus, nos ofícios fúnebres e de penitências, que significa os gemidos espirituais. Porque de tudo isso o povo deve dar mostras. - Pela doutrina de Cristo, contida no Evangelho o povo é perfeitamente instruído; e é lida pelos diáconos, ministros do grau mais elevado. E por crermos em Cristo, como na Verdade divina, segundo aquilo do Evangelho: "Se eu vos digo a verdade, porque me não credes? (São João, VIII, 46). - Lido o Evangelho, canta-se  o Símbolo da Fé, (o Credo) pelo qual todo o povo mostra o seu assentimento à fé na doutrina de Cristo. O Símbolo se canta nas festas de que se faz nele alguma menção, como nas de Cristo e da Santíssima Virgem. E nas dos Apóstolos que fundaram esta fé, e em outras semelhantes.

   Assim, pois, preparado e instruído o povo, passa o sacerdote à celebração do mistério. E este é oferecido como sacrifício, e consagrado  e tomado como sacramento. E então, primeiro, se realiza a oblação; segundo, a consagração da matéria oferecida; terceiro, a recepção dela. 

   A oblação se compõe de duas partes: o louvor do povo no canto do ofertório, símbolo da alegria dos oferentes; e a oração do sacerdote, que pede seja aceita de Deus a oblação do povo. Por isso disse David: "Eu te ofereci alegre todas estas coisas na simplicidade do meu coração; e eu vi que o teu povo, que aqui está junto, te ofereceu os seus presentes com grande alegria"(Paralipômenos [hoje= CRÔNICAS], XXIX, 17 e 18).

   E depois vem a Consagração já com o prefácio onde a Igreja procura despertar a devoção do povo; por isso adverte-o a ter os corações elevados para o Senhor - "Sursum corda; habemus ad Dominum = Corações ao alto! Já os temos para o Senhor!". Donde, acabado o prefácio, a Igreja louva devotamente a divindade de Cristo, dizendo com os anjos: "Sanctus, Sanctus, Sanctus" (Isaías, VI, 3). E louva igualmente a humanidade de Cristo dizendo com os meninos: "Benedictus qui venit" (Mateus, XXI, 9,15). Depois o sacerdote comemora, em secreto, aqueles por quem oferece o sacrifício, isto é, pela Igreja universal e pelos que estão elevados em dignidade (1 Tim. II, 2); e especialmente certos que oferecem ou por quem é oferecido. - Em segundo lugar, comemora os santos, quando lhes implora o patrocínio pelo que acabou de recomendar, ao dizer: "Communicantes e memoriam venerantes,etc" (="Unidos numa mesma comunhão, honremos a memória"... ).  Enfim, em terceiro lugar, conclui a petição, quando diz: "Hanc igitur oblationem etc." (=Assim, pois, esta oblação"...) para que se faça a oblação por aqueles por quem é oferecido o sacramento. 

    Em seguida passa propriamente à consagração, na qual, - primeiro - pede o efeito dela, quando diz: "Quam oblationem tu, Deus..." (=Cuja oblação, ó Deus...). Segundo, faz a consagração, pronunciando as palavras do Senhor, quando disse: "Qui pridie quam pateretur..." (=O qual na véspera de sua Paixão...). - Terceiro - escusa-se da sua ousadia por obediência ao mandado de Cristo, quando diz: "Unde et memores..." (=É porque, lembrando-nos...). - Quarto - pede que seja aceito de Deus o sacrifício celebrado, quando diz: "Supra quae propitio..." (=Sobre os quais com propício...). - Quinto - pede o efeito deste sacrifício e sacramento: 1º - para os que o receberem, quando diz: "Suplices te rogamus..." (=Nós Vos suplicamos, humildemente...); 2º - para os mortos que já não podem receber, quando diz: "Memento etiam, Domine..." (=Lembrai-vos também, Senhor... ); 3º - especialmente pelos sacerdotes mesmos que o oferecem, quando diz: "Nobis quoque peccatoribus..." (=A nós também, pecadores...".

    A seguir vem a recepção do sacramento. - E primeiro o povo é preparado para o receber -primeiramente, pela oração comum de todo o povo, que é a oração dominical, na qual pedimos: o pão nosso de cada dia nos dai hoje; e também pela oração particular, que o sacerdote especialmente oferece pelo povo, quando diz: "Libera nos, quaesumus, Domine..." (=Livrai-nos, Senhor, nós volo pedimos...). - Segundo - o povo é preparado pela paz, que é dada quando reza o Agnus Dei: pois este é o sacramento da unidade e da paz. Mas nas missas dos defuntos, nas quais o sacrifício é oferecido, não pela paz presente, mas pelo descanço dos mortos, omite-se a paz. 

    Segue-se depois a recepção do sacramento, pelo sacerdote primeiro, que o distrubui depois aos outros; porque, como diz (S.) Dionísio, quem dispensa o sacrifício aos outros deve, primeiro, participar dele.

    E por último, a celebração completa da missa termina pela ação de graças - o povo exultando pela recepção deste mistério, como o significam os cânticos depois da comunhão; e o sacerdote, dando graças pela oração, assim como Cristo, celebrada a Ceia com os discípulos, disse o hino, como referem  os Evangelhos de São Mateus, XXVI, 30 e São Marcos, XIV, 26. 

  Por tudo que acabamos de explicar, temos a solução das dificuldades: 



RESPOSTAS ÀS OBJEÇÕES
    1ª Objeção: Parece que foram inconvenientemente ordenadas as palavras proferidas neste sacramento, porque este sacramento é consagrado pelas palavras de Cristo, como diz (Santo) Ambrósio. Logo, nele não se deve proferir nada mais senão as palavras de Cristo.
     RESPOSTA: A consagração se opera pelas sós palavras de Cristo. Mas é necessário fazer-lhes acréscimos para a preparação do povo, que recebe o sacramento, como dissemos.

    2ª Objeção: As palavra de Cristo nós as conhecemos pelo Evangelho. Ora, na consagração deste sacramento, os Evangelhos referem que Cristo disse: Tomai e comei, sem dizer - todos. Mas na celebração deste sacramento diz-se: "Accipite, et manducate ex hoc omnes", isto é, "Tomai e comei dele todos". Logo, esta palavra (=todos) não devia ser proferida na celebração deste sacramento.
    RESPOSTA: O vocábulo - todos - subentende-se entre as palavras do Evengelho, embora não esteja nele expresso. Pois, Cristo disse: "Se não comerdes a carne do Filho do Homem, não tereis a vida em vós" (São João, VI, 54). Além disso: estas palavras não fazem parte da forma da Consagração.

    3ª Objeção: Os demais sacramentos se ordenam à salvação de todos os fiéis. Ora, na celebração destes sacramentos não se faz oração comum pela salvação de todos os fiéis e dos defuntos. Logo, também não se devia assim proceder neste sacramento.
    RESPOSTA: A Eucaristia é o sacramento de toda a unidade eclesiástica. Por isso, mais especialmente neste que nos outros sacramentos, deve-se fazer menção de tudo aquilo que se refere à salvação de toda a Igreja.

    4ª Objeção: O batismo é especialmente chamado o sacramento da fé. Logo, o que se refere à instrução da fé deve ser conferido antes no batismo que neste sacramento.; assim a doutrina Apostólica e a dos Santos Evangelhos. 
    RESPOSTA: Há duas espécies de instrução na fé. - Uma é a dos catecúmenos, que acabam de receber a fé. E esta instrução é dada no batismo. - Outra é a recebida pelo povo fiel, que participa deste mistério. E esta é dada neste sacramento. Contudo, dela não ficam privados também os catecúmenos e os infiéis. Por isso dispõe um cânone: "O bispo não proíba a ninguém entrar na Igreja e ouvir a palavra de Deus, quer se trate de gentio, quer de herético ou Judeu, até a missa dos catecúmenos, na qual está contida a instrução da fé".

   5ª Objeção: Todo sacramento supõe a devoção dos fiéis. Logo, não se deve, mais por este sacramento que pelos outros, despertar-lhes a devoção mediante louvores divinos e advertências; p.ex., quando se diz: "Sursum corda" - "Habemus ad Dominum" (=Corações ao alto! - Já os temos para o Sehor!).
    RESPOSTA: Este sacramento requer maior devoção que os outros, porque nele está contido todo Cristo. É também mais geral: porque exige a devoção de todo o povo a favor do qual é oferecido, e não só dos que o recebem, como se dá com os outros sacramentos. Por isso, no dizer de (S.) Cipriano, o sacerdote, recitado o prefácio, prepara as almas dos seus irmãos, exclamando- "Sursum corda! e respondendo o povo: "Habemus ad Dominum", é advertido a pôr todos os seus pensamentos em Deus.

    6ª Objeção: O ministro deste sacramento é o sacerdote, como se disse na q,72,a1. Logo tudo quanto nele se reza devia ser proferido pelo sacerdote e não, certas coisas pelos ministros e certas outras pelo coro.
    RESPOSTA: Neste sacramento menciona-se, como se disse, o concernente a toda a Igreja. Por isso, o coro recita certas partes atinentes ao povo. - Dessas, umas o coro as continua até ao fim; e esses são os sugeridos a todo o povo. - Outros o sacerdote, que faz as vezes de Deus, começa e o povo continua; em sinal de que tais coisas, como a fé na glória celeste, chegavam ao povo por divina revelação. Por isso, o sacerdote começa a recitar o Credo in unum Deum (Símbolo da fé) e o Gloria in excelsis Deo. Outros são recitados pelos ministros, como a doutrina do Velho e do Novo Testamento; como sinal que ela foi anunciada aos povos pelos ministros mandados por Deus.
    Outras partes, porém, só o sacerdote é quem as recita; e são as que lhe concerne ao ofício próprio, que é oferecer dons e sacrifícios pelo povo, como diz São Paulo em Hebreus, V, I. Mas, aí, o concernente ao sacerdote e ao povo, o sacerdote o recita em voz alta, e tais são as orações comuns. - Mas certas outras, como a oblação e a consagração, concernem só ao sacerdote. Por isso reza em voz submissa o que a constitui. Mas antes, porém, o sacerdote desperta a atenção do povo, dizendo Per omnia saecula saeculorum, e esperando o assentimento do povo com o Amen; e depois diz Dominus vobiscum. 
    O que reza secretamente é também sinal de que , na Paixão de Cristo, só às ocultas os discípulos O confessavam. 

    7ª Objeção: Este sacramento é certamente obra do poder divino. Logo, é supérfluo o pedido do sacerdote para que essa obra se cumpra: "Quam oblationem tu, Deus, in omnibus... facere digneris..." (=Esta oblação, ó Deus, nós pedimos, dignai-Vos abençoá-la, recebê--la e aprová-la plenamente..."
    RESPOSTA: Primeiro devemos estar lembrados que a eficácia das palavras sacramentais pode ficar impedida pela intenção do sacerdote. - Nem há inconveniente em pedirmos a Deus o que sabemos com certeza Ele o fará; assim Cristo pediu a sua glorificação (São João, XVII). - Aqui, no entanto, o sacerdote não ora para que se faça a consagração, mas para nos ser ela frutuosa; donde dizer sinaladamente que ela se torne para nós o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo. E isto significam as palavras que proferiu antes: Dignai-Vos tornar esta oblação bendita,isto é, como o explica (Santo) Agostinho, pela qual sejamos abençoados, pela graça; aprovada,isto é, pela qual sejamos recebidos no céu; ratificada, isto é, que por ela sejamos unidos ao coração de Cristo; racionável, isto é, pela qual sejamos livres do senso animal; aceitável, isto é, a fim de que, descontentes de nós mesmos, por meio dela sejamos aceitáveis ao Seu Filho único. 

    8ª Objeção: O sacrifício da Lei Nova é muito mais excelente  que o dos antigos Patriarcas. Logo, o sacerdote não devia pedir a aceitação desse sacrifício, como o de Abel, Abraão e Melquisedech.
    RESPOSTA: Embora este sacramento seja, em si mesmo, superior a todos os antigos sacrifícios, contudo os sacrifícios dos antigos foram muito aceitos de Deus, por causa da devoção deles. Por isso o sacerdote pede que este sacrifício seja aceito de Deus, pela devoção dos oferentes, como o foram aqueles outros do A. T.
    9ª Objeção: O corpo de Cristo, assim como não começa a estar neste sacramento por mudança de lugar ( como antes q. 75,a 2 foi dito), assim também nem, por este modo, deixa de nele estar. Logo, não é apropriada a petição do sacerdote: ("Suplices te rogamus, omnipotens Deus): jube  haec perferri per manus sancti Angeli tui... (Nós Vos suplicamos, humildemente, ó Deus onipotente, que, pelas mãos de vosso Santo Anjo, mandeis levar estas ofertas ...).
    RESPOSTA: O sacerdote não pede nem que as espécies sacramentais sejam levadas ao céu; nem que o seja o verdadeiro corpo de Cristo, que aí não deixa de estar presente. Mas o pede para o corpo místico, simbolizado neste sacramento; isto é, que as orações, tanto do povo como do sacerdote, os apresente a Deus o anjo assistente aos divinos mistérios, segundo aquilo do Apocalipse, VIII, 4: "Subiu o fumo dos perfumes das orações dos santos da mão do anjo. Quanto à expressão - sublime altar de Deus - significa ou a própria Igreja triunfante, a que pedimos sejamos trasferidos; ou Deus mesmo, do qual pedimos participar. Pois, deste altar diz a Escritura em Êxodo, XX, 26: "Non ascendes per gradus ad altare meum, isto é, in Trinitate gradus non facies". ("Não subirás por degraus ao meu altar, isto é, não introduzirás graus na Trindade"). - Ou, pelo anjo entende-se o próprio Cristo, o Anjo do grande conselho, que uniu o seu corpo místico a Deus Pai e à Igreja triunfante. Donde também a denominação de missa; porque pelo anjo o sacerdote emite (mittit) as suas preces a Deus, como o povo, mediante o sacerdote. Por isso, no fim da missa  o diácono diz nos dias festivos- Ite, missa est (= Ide, foi oferecida) isto é, a hóstia  a Deus pelo anjo, de modo a ser de Deus aceita.





ARTIGO V: Se as cerimônias usadas na celebração deste mistério são convenientes.
   Parece que as cerimônias usadas na celebração deste sacramento não são convenientes. 
   Mas devemos dizer o contrário, porque estas cerimônias fazem parte do costume legitimo (consuetudo) da Igreja, que não pode errar, dado que é inspirada pelo Espírito Santo.
   EXPLICAÇÃO que dá a SOLUÇÃO para todas as dificuldades ou objeções.
   Como dissemos, para ser mais perfeita a significação, tudo o que se faz nos sacramentos é significado duplamente por palavras e por atos. Ora, certos passos da Paixão de Cristo, representados na celebração deste sacramento, são significados por palavras. Ou ainda certas coisas concernentes ao corpo místico, que esse sacramento representa; e outras referentes ao uso do mesmo, que deve ser com devoção e reverência. Por isso, na celebração deste mistério, certas práticas representam a Paixão de Cristo; ou ainda, a disposição do corpo místico; e certas outras dizem respeito à devoção e reverência devidas a este sacramento.
    OBJEÇÕES
    E assim podemos responder às objeções:
    1ª Objeção: Este sacramento pertence ao Novo Testamento, como o mostra a sua própria forma. Ora, na vigência do Novo Testamento não se devem observar as cerimônias do Velho, nas quais o sacerdote e os ministros lavavam-se com água quando iam oferecer o sacrifício. Assim, lemos em Êxodo, XXX, 19: "Aarão e seus filhos lavarão as suas mãos e os pés, quando tiverem de se aproximar do altar...". Logo, não é conveniente o sacerdote lavar as mãos na solenidade da missa.
    RESPOSTA: A ablução das mãos se faz na celebração da missa, pela reverência devida a este sacramento. E isto por duas rações: 1º - Por ser costume geral tocarmos em coisas preciosas com as mãos lavadas. Por onde, faltaria à decência quem se achegasse a tão grande sacramento com as mãos sujas, mesmo no sentido material. - 2º - Pelo significado da ablução. Pois, como diz (S.) Dionísio, o lavarmos as extremidades significa a purificação, ainda dos mínimos pecados, segundo aquilo do Evangelho de S. João, XIII, 10: "Aquele que está lavado não tem necessidade de lavar senão os pés". E esta purificação é necessária a quem se achega a este sacramento. O que também é significado pela confissão que se faz antes do começo da missa. E o mesmo significava a ablução dos sacerdotes na Lei Velha, conforme o ensina (S.) Dionísio no mesmo lugar. - Mas a Igreja não o observa como preceito cerimonial da Lei Velha, senão como instituído por ela, e na prática em si mesma conveniente. Por isso, não é observado do mesmo modo por que o era antigamente. Também se omite a ablução dos pés, conservando-se só a das mãos, por poder fazer mais facilmente e por bastar a significar a perfeita purificação. Pois, sendo as mãos o órgão dos órgãos, na expressão de Aristóteles, todas as obras se lhes atribuem a elas. Donde o dizer o Salmo XXV, 6: "Lavarei as minhas mãos entre os inocentes".

    2ª Objeção: O Senhor mandou que o sacerdote queimasse incenso de suave fragrância sobre o altar que estava diante do propiciatório (Êxodo, XXX, 7). O que também era uma das cerimônias do Antigo Testamento. Logo, não deve o sacerdote oferecer incenso, durante a missa. 
    RESPOSTA: Não usamos incenso como se fosse um preceito cerimonial da lei, mas por uma determinação da Igreja. Por isso não oferecemos do mesmo modo pelo qual o estatuía a Lei no Velho Testamento. - E o fazemos por duas razões - Primeiro, para reverenciar este sacramento: para que o bom cheiro do incenso, expulse algum mau odor do local, que pudesse provocar repugnância. Segundo, para representar o efeito da graça da qual, como de bom odor, Cristo tinha a plenitude, segundo aquilo da Escritura Gênesis XXVII, 27: "Eis o cheiro de meu filho como o cheiro de um campo cheio." E o qual deriva de Cristo para os fiéis, por meio dos ministros, segundo aquilo do Apóstolo em 2 Corintios II, 14: "Por nosso meio difunde o odor do conhecimento de si mesmo em todo lugar." Por isso , depois de incensado todo o altar, que designa a Cristo, incensam-se os demais, numa certa ordem.

   3ª Objeção: a) Transferimos para aqui a primeira parte da 2ª objeção do artigo anterior.
   Os atos de Cristo nós os conhecemos pelo Evangelho. Ora, na consagração deste sacramento se alude a ato que não está no Evangelho. Assim, aí não lemos que Cristo, na consagração deste sacramento, elevasse os olhos para o céu. Pois, na celebração deste sacramento se diz: Tendo elevado os olhos ao céu". Logo,  isto não deveria ser feito na celebração deste sacramento. 
RESPOSTA: Como diz o Evangelho de São João XXI,  25 , muitas coisas fez  e disse o Senhor pelos Evangelistas não referidas. Entre elas está que o Senhor, na Ceia, elevou os olhos para o céu, o que a Igreja o recebeu pela tradição dos Apóstolos. Pois é racional, que quem, na ressurreição de Lázaro  e na oração que fez pelos discípulos, levantou os olhos para o Pai, como o narra o evangelista, com maior razão o fizesse ao instituir este sacramento, coisa mais importante.

   3ª Objeção: b) As cerimônias realizadas nos sacramentos da Igreja não devem reiterar-se. Logo, não deve o sacerdote repetir tantas vezes os sinais da cruz sobre este sacramento.
   RESPOSTA: O sacerdote, na celebração da Missa, faz o sinal da cruz para exprimir a Paixão de Cristo, que na cruz se consumou. A Paixão de Cristo, porém, realizou-se como por alguns graus.(=por etapas). 
Assim, primeiroteve lugar a entrega de Cristo, feita por Deus, efetuada por Judas e pelos Judeus. E isto significam os três sinais da cruz acompanhados das palavras: Haec dona +, haec munera + haec sancta sacrificia illibata +. Em português: "Estes dons, estes presentes, estes santos sacrifícios sem mancha." Segundo, depois foi Cristo vendido. Ele foi vendido, porém, pelos sacerdotes, escribas e fariseus. Para o significar, o sacerdote faz de novo por três vezes o sinal da cruz, dizendo: "Benedictam, +  adscriptam, +  ratam" + . Em português: "Bendita, aprovada, ratificada". Ou para mostrar o preço da venda, que foram os trinta dinheiros. E acrescenta duplo sinal da cruz às palavras: "ut nobis corpus + et sanguis +... Em português: "Afim de que para nós o corpo e o sangue..." a fim de designar a pessoa de Judas, o vendedor, e de Cristo, o vendido. - Terceiro, a Paixão de Cristo foi prenunciada na ceia. Para designá-lo o sacerdote faz em terceiro lugar, o sinal da cruz por duas vezes - uma ao consagrar o corpo; outra, ao consagrar o sangue, dizendo em ambas as vezes: "benedixit"=abençoou. Quarto: em quarto lugar, consumou-se a Paixão mesma de Cristo. E para representar as cinco chagas de Cristo o sacerdote faz pela quarta vez cinco sinais da cruz, dizendo: "hostiam + puram, hostiam+sanctam,  hostiam+ immaculatam,  panem +sanctum  vitae aeternae,  et calicem+ salutis perpetuae."  Em português: "a Hóstia pura, a Hóstia santa, a Hóstia imaculada. o Pão santo da vida eterna e o Cálice da salvação perpétua". Quinto: em quinto lugar é representada a extensão do corpo na cruz, a efusão do sangue e o fruto da paixão. Daí mais três sinais da cruz acompanhados das palavras: "Filii tui + Corpus, et + Sanguinem sumpserimus, omni + benedictione" ... Em português: "participando deste altar, recebermos o sacrossanto Corpo e o Sangue de vosso Filho, sejamos repletos de toda bênção celeste"... Sexto: em sexto lugar é representada a tríplice oração que Cristo fez na cruz: - uma pelos seus perseguidores, quando disse: "Pai, perdoai-lhes"... a segunda para libertar-se da morte, quando disse: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste"? a terceira para alcançar a glória quando exclamou: "Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito". E para significá-lo o sacerdote faz três sinais da cruz, dizendo: "sanctificas,+  vivificas, + benedicis"+... = santificais, vivificais, abençoais... Sétimo: em sétimo lugar, representa as três horas durante as quais ficou suspenso na cruz, isto é, desde a sexta até a nona hora. E para significá-lo, faz de novo o sacerdote por três vezes o sinal de cruz, pronunciando as palavras: "Per + ipsum, et cum + ipso, et in + ipso". = "Por Ele, com Ele e n'Ele". Oitavo: em oitavo lugar, representa-se a separação entre a alma e o corpo, por dois sinais da cruz subsequentes, fora do cálice.  Nono: Enfim, em nono lugar, é representada a ressurreição, operada no terceiro dia, por três cruzes, acompanhadas da palavras: "Paz + Domini sit  + semper +  vobiscum". = "A paz do Senhor esteja sempre convosco." 
   - Mas, podemos dizer, mais brevemente, que a consagração deste sacramento e a aceitação deste sacrifício, bem como o seu fruto, procedem da virtude (=força ou eficácia)  da cruz de Cristo. Por isso, sempre que o sacerdote faz menção de alguma dessas três coisas(=consagração deste sacramento, aceitação deste sacrifício e o seu fruto) faz o sinal da cruz. 

   4ª Objeção: O Apóstolo  diz em Hebreus, VII, 7: "Sem nenhuma contradição, o que é inferior recebe a bênção do que é superior". Ora, Cristo, que está neste sacramento, depois da consagração, é muito maior que o sacerdote. Logo, inconvenientemente o sacerdote benze, depois da consagração, este sacramento, fazendo sobre Ele o sinal da cruz.
   RESPOSTA: O sacerdote, depois da consagração, não faz o sinal da cruz para benzer e consagrar, mas só para comemorar o sinal da cruz e o modo da Paixão de Cristo, o que ficou claro pelo que foi dito acima ao responder à terceira objeção. (cinco cruzes sobre Nosso Senhor para significar as cinco chagas feitas em Jesus na Sua Paixão).

   5ª Objeção: Nos sacramentos da Igreja não deve haver nada que seja ridículo. Ora, é ridículo fazer gesticulações, como quando o sacerdote estende os braços, põe as mãos, junta os dedos e se inclina. Logo, tais coisas se não deviam fazer neste sacramento.
   RESPOSTA: Nenhum dos gestos do sacerdote, na missa, constitui gesticulação ridícula , pois têm o fim de representar alguma coisa. - Assim, o estender os braços depois da consagração significa o Cristo com os braços estendidos na cruz. - Também levanta as mãos ao orar, para significar que a sua oração se dirige  a Deus, pelo povo, segundo aquilo da Escritura Tren., III, 41: "Levantemos ao Senhor os nossos corações com as mãos para os céus.". E Êxodo, XVII, 11 diz: "Quando Moisés tinha as mãos levantadas vencia Israel". - Quando põe as mãos, inclina-se, orando súplice e humildemente, designa assim a humildade e a obediência com que Cristo sofreu. - Junta os dedos polegar e indicador, com que tocou o corpo consagrado de Cristo a fim de que não se disperse alguma partícula que a eles se tivesse apegado. O que constitui reverência para com o sacramento.

   6ª Objeção: Também é ridículo o sacerdote voltar-se tantas vezes para o povo, tantas vezes saudá-lo. Logo, nada disso devia fazer-se na celebração deste sacramento. 
   RESPOSTA: O sacerdote volta-se cinco vezes para o povo, para significar que o Senhor se manifestou cinco vezes no dia da ressurreição, como dissemos quando tratamos da ressurreição de Cristo. - Saúda sete vezes o povo, isto é, cinco vezes quando se volta para ele; e duas, em que não se volta, isto é, quando antes do prefácio diz: "Dominus vobiscum". E quando diz: "Pax Domini sit semper vobiscum" = "A paz do Senhor esteja sempre convosco" para designar a septiforme graça do Espírito Santo. Quanto ao bispo, quando celebra nos dias festivos, diz, na primeira saudação: "Pax vobis", o que depois da ressurreição o Senhor o disse aos discípulos, cujas pessoas sobretudo as representa o bispo. 

   7ª Objeção: O Apóstolo em 1ª Cor. I, 13  diz que Cristo não deve ser dividido. Ora, depois da consagração Cristo está neste sacramento. Logo, o sacerdote não devia fracionar a hóstia. 
   RESPOSTA: A fração da hóstia significa três coisas. Primeiro, a divisão mesma do corpo de Cristo, que se operou na Paixão. - Segundo, a distinção do corpo místico em diversos estados. - Terceiro, a distribuição das graças procedentes da Paixão de Cristo, com diz (S.) Dionísio. Por onde, tal fracção não induz divisão em Cristo. 

   8ª Objeção: As cerimônias deste sacramento representam a Paixão de Cristo. Ora, na Paixão, o corpo de Cristo foi dividido nos lugares das cinco chagas.  Logo, o  corpo de Cristo devia ser dividido antes em cinco que em três partes. 
   RESPOSTA: Como diz o Papa Sérgio (em De consecr., didt. II): "Triforme é o corpo do Senhor. A parte oferecida, posta no cálice, representa o corpo de Cristo já ressuscitado. Isto  é, o próprio Cristo e a Santa Virgem, que já estão na glória com os seus corpos. A parte que se come significa os que ainda vivem nesta terra. pois os peregrinos neste mundo se unem com Cristo pelo sacramento; e ficam alquebrados pelo sofrimento como o pão comido é triturado. - A parte remanescente no altar até o fim da missa significa o corpo jacente no sepulcro; porque até o fim dos séculos os corpos dos santos estarão nos sepulcros; mas as almas estão no purgatório ou no céu. Este rito porém não se observa atualmente, isto é, o de conservar uma parte até ao fim da missa. Mas permanece a mesma significação das partes. O que certos exprimiram em versos, dizendo: A hóstia se divide em partes; molhada (=a que fica dentro do cálice com o precioso sangue) significa os que gozam da plena beatitude; seca, significa os vivos; conservada, significa os sepultos. 
   Certos, porém, dizem, que a parte posta no cálice significa os viventes neste mundo; a conservada fora do cálice significa os plenamente bem-aventurados, isto é, em corpo e alma; a parte comida significa os outros. 

   9ª Objeção: O corpo de Cristo é totalmente consagrado neste sacramento, em separado do sangue. Logo, não se devia misturar com o sangue uma parte dele.
   RESPOSTA: O cálice pode ter dupla significação. - Numa é a Paixão mesma, representada neste sacramento. E então, a parte posta no cálice significa os ainda participantes dos sofrimentos de Cristo. - Noutra significação pode simbolizar o gozo dos bem-aventurados, também prefigurado neste sacramento. Por onde, aqueles cujos corpos já gozam da plena beatitude são simbolizados pela parte posta no cálice. - E devemos  notar, que a parte posta no cálice não deve ser dada ao povo como complemento da comunhão, porque o pão molhado Cristo não o deu senão ao traidor Judas. 

   10ª Objeção: Assim como o corpo de Cristo é dado neste sacramento  como comida, assim o sangue de Cristo, como bebida. Ora, à recepção do corpo de Cristo, ao celebrar a missa, não se lhe acrescenta nenhum outro alimento para o corpo. Logo, não devia o sacerdote, depois de ter bebido o sangue de Cristo, tomar vinho não consagrado. (Se refere ao vinho das abluções)
   RESPOSTA: O vinho, em razão da sua humildade, serve para lavar. Por isso, é tomado depois da suscepção deste sacramento, para lavar a boca, para que nenhuma partícula nela fique; o que constitui reverência para com este sacramento. Por isso, uma disposição canônica determina: o sacerdote deve sempre lavar a boca com o vinho, depois de ter recebido completamente o sacramento da Eucaristia; salvo de dever no mesmo dia (Isto porque o jejum eucarístico era de 12 horas e só se celebrava de manhã) celebrar outra missa; a fim de que o vinho tomado para lavar a boca não impedisse celebrar outra vez. E pela mesma razão lava com vinho os dedos, com que tocou o corpo de Cristo. 

   11ª Objeção: O verdadeiro deve corresponder ao figurado. Ora, do cordeiro pascal, que foi a figura deste sacramento, a lei ordenava que nada se conservasse para o dia seguinte. Logo, não se deviam conservar hóstias consagradas, mas consumi-las logo.
   RESPOSTA: A verdade deve, de certo modo, corresponder à figura; assim não deveria realmente a parte da hóstia consagrada, da qual o sacerdote e os ministros ou também o povo comungam, ser conservada para o dia seguinte. Mas devendo este sacramento ser recebido todos os dias, o que não se dava com o cordeiro pascal, por isso é necessário conservar outras hóstias consagradas para os enfermos. Por onde na legislação da Igreja dada pelo Papa (S.) Clemente se estabelece: "O prebítero tenha sempre preparada a Eucaristia de modo que quando alguém adoecer, dê-lhe logo a comunhão, não vá morrer sem ela."

   12ª Objeção: O sacerdote fala aos ouvintes no plural; por   exemplo, quando diz: "Dominus vobiscum" (= O Senhor esteja convosco), e, "Gratias agamus" (= Demos graças). Ora, não devemos falar no plural quando nos dirigimos a um só, sobretudo inferior. Logo, não devia o sacerdote celebrar a missa, estando presente só um ministro.
   RESPOSTA: Na celebração solene da missa, vários devem estar presentes. Donde o dizer o Papa Sotero: "Também isto foi estabelecido, que nenhum sacerdote ouse celebrar solenemente a missa sem dois ministros presentes, que lhes respondam, a ele como terceiro; porque quando diz no plural "Dominus vobiscum"; e a oração secreta "Orate pro me", é necessário evidentemente que lhe alguém responda à saudação".  Por isso, para maior solenidade, lemos no mesmo lugar como estatuído ( De Consecr. dist. I , papa Soter) que o bispo celebre, com vários ministros, a solenidade da missa. - Mas, nas missas privadas, basta haver um ministro, representante de todo o povo católico, em nome do qual responde no plural ao sacerdote.